quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Mar, a Amizade

Estar longe da pessoa de quem gosta é o que leva o jovem iraquiano Bilal a viajar do Curdistão até Calais, para enfim atravessar o Canal da Mancha e encontrar o seu destino. Bilal encontra o limbo, preso entre a não repatriação por causa da guerra e o estigma da ilegalidade.
Impõe-se a travessia do canal, nem que seja a nado, e assim começa a relação com Simon, professor de natação, em processo de divórcio e preso à solidão. Assim nasce uma amizade impulsionada pela natação e pela necessidade de ter companhia.
Bilal é a lição que nos diz que no Médio Oriente também há seres humanos, pessoas com medos, desejos e emoções, num filme que deixa completamente de lado a problemática da imigração ilegal. Simon representa o auxílio, que surge subitamente na vida, quando parece não haver solução para os problemas em que se tropeça.
Como pano de fundo, o mar, elemento purificador, libertador, objectivo a transpor com esperança num horizonte de paz. Paz encontrada por Simon, que reparando no estranho, no exótico, no Outro, canaliza através de Bilal o seu desperar de dias negros, para uma consciência cívica, fraterna e talvez paterna, talvez nostálgica.
Com uma história a conversar com o nosso interior e a paisagem tranquila do mar ficará o leitor/espectador, últimas imagens de cinema antes das festividades natalícias. Para que se perceba, também, que o Natal é muito mais do que presentes e uma mesa bem composta.
Bom filme com beijinhos e abraços de Boas Festas.
LG

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tavira, 1917

Passaram quase nove anos desde que a autarquia adquiriu o Cine-Teatro António Pinheiro a particulares, estando anunciada a sua reconversão num espaço mais moderno e apto às práticas das artes do espectáculo, segundo um projecto do arquitecto Júlio Quaresma. Esperamos todos que tal empreendimento melhore as condições do espaço de Tavira por excelência para cinema e teatro, local de culto, de romaria, de convívio e de memórias.
A propósito de memórias e enquanto não chega a data em que vemos desaparecer o actual edifício, propomos a leitura de um texto em que tropeçámos nas lides arquivísticas. Trata-se do artigo que, no jornal tavirense Provincia do Algarve de 28 de Outubro de 1917, nos dá conta da inauguração do antigo Teatro Popular. Acontecimento de extrema importância na cena cultural e social de Tavira, veio substituir o decadente Teatro Tavirense, já encerrado por falta de condições, situado em local menos central da cidade na realidade moderna e empreendedora da época.
O tom de enaltecimento é compreensível, ao fim de duas noites de festa (sim, a inauguração teve duas noites de celebração) que, com a participação de três filhos da terra das lides do espectáculo, foi abrilhantada a um nível superior à actividade artística local.
É nesta altura que se dá o ponto de partida para a exibição apropriada de cinema que nesta sala se faz desde o início, dois dias depois da inauguração. Até então, a projecção de cinema ocorria em barracões de feira montados para o efeito, havendo referências a dois destes espaços na cidade.
Tavira acompanhava assim, sem muita distância, o fenómeno social e cultural que internacionalmente transformava o cinema, justamente de atracção de feira em 7ª Arte, assim baptizado pelo teórico Ricciotto Canudo seis anos antes.
Assim, também neste aspecto, a então direcção do Teatro Popular esteve, consciente ou inconscientemente, de Parabéns!
Eis o artigo, reproduzido com a grafia original.
LG

"Foi revestida do maior brilhantismo a inauguração do Teatro Popular, realisada nas noites de 24 e 25 do corrente.
A nosso ver, ultrapassou a expectativa dos assistentes, pois no seu conjunto essa festa foi deveras atraente e cativante, deixando no espirito de todos a convicção bem patente de que em Tavira se poderá fazer alguma coisa de util e de agradavel, com a boa vontade de todos.
Foram dois os espectaculos, havendo sempre um extraordinario entusiasmo e prazer de se ouvir e apreciar essas notabilidades artisticas, tão conhecidas no nosso país.
A festa de inauguração do Teatro Popular marcou no nosso meio artístico uma página brilhante que jámais será esquecida.
Com isso devem sentir-se orgulhosos os cavalheiros que compõem a direcção do Teatro porque abriu a série dos espectaculos com um brilho desusado no nosso meio.
A récita da noite de 24 começou com uma poesia alusiva ao acto feita pelo nosso colaborador sr. Carlos Trindade e que noutro lugar reproduzimos, recitada pelo professor da Escola de Arte de Representar, o nosso patrício sr. António Pinheiro.
A seguir foi a representação pelo grupo do Teatro Nacional, da comédia em 3 actos Divorciemo-nos. Aos espectadores agradou imenso a afamada companhia, e aplaudiram os laureados artistas, especialmente Palmira Torres, Pato Moniz e Henrique de Albuquerque com prolongadas e entusiásticas salvas de palmas.
Na segunda noite, 25, subiu à scena o conhecido drama em 4 actos João José, sendo igualmente apreciado, destacando-se além de Palmira Torres e Pato Moniz o nosso patrício António Pinheiro.
Os actores Augusto de Melo, Joaquim Roda e Henrique de Albuquerque recitaram vários monólogos e poesias, recebendo fartos aplausos.
O professor sr. J. Henrique dos Santos executou primorosamente solos de violoncelo, recebendo aclamações entusiásticas.
O professor sr. Pavia de Magalhães executou solos de violino obtendo mais um triunfo à sua gloriosa carreira musical. O sr. Pavia de Magalhães que afirma em todas as suas composições o seu muito saber e as suas excelentes qualidades de músico, é muito estimado na sua terra natal.
A sra. D. Branca Pavia de Magalhães, extremosa esposa do sr. Pavia de Magalhães, que foi a nosso ver a rainha da festa, tocou vários trechos ao piano com acompanhamento do sexteto.
O professor sr. António Pinheiro recitou várias poesias recebendo flores e aplausos.
O cantor lírico sr. Alfredo Mascarenhas cantou solos de barítono: na primeira noite o Prólogo da Ópera Palhaços, e na segunda noite uma romanza e um trecho da Opera Barbeiro de Sevilha. O sr. Mascarenhas é um ilustre algarvio e reputado artista e inútil e pleonástico será encarecer os dotes profissionais do laureado cantor que o nosso público justamente distinguiu e ovacionou.
O maestro sr. António Rebelo Neves teve com justiça chamadas especiais colhendo fortes e merecidos aplausos.
Enfim, os dois espectáculos foram esplendidos, duas verdadeiras noites de arte, recebendo os seus interpretantes fartas e quentes palmas, bouquets de flôres e numerosas chamadas.
Foram duas belas noites que jámais se apagarão da memória de quem a elas teve o prazer de assistir, pois deixaram gratas e saudosas recordações.
No final do segundo espectaculo o sr. António Pinheiro, em nome de todos os artistas, agradeceu o acolhimento dispensado à companhia e ao belo sexteto, declarando que este grupo se oferecia para abrilhantar a inauguração da época cinematográfica bem como a valiosa cooperação do cantor lírico sr. Alfredo Mascarenhas, declaração que foi saudada com uma prolongada salva de palmas.
O publico ficou o melhor impressionado possível com estes dois espectaculos não regateando elogios a todos os artistas.
De Faro, Olhão, Vila Rial, Loulé e Albufeira veio grande numero de pessoas assistir aos espectaculos.
É digna de todos os elogios a direcção do Teatro srs. Manuel Pires Faleiro, António do Nascimento Teixeira, João Pedro Maldonado e Eduardo Felix Franco, que nos proporcionou duas noites de arte.
Agradecemos à ilustre direcção a amabilidade da oferta dos dois bilhetes para estes espectaculos.
A inauguração da época cinematografica começou ontem, sabado, com o emocionante drama de Erneste Zaconni O emigrante, da série de Ouro.
Hoje há nova sessão cinematografica com a esplendida fita em 4 partes também da série de ouro, intitulada Caím."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cinema Português 5: António Campos

Caso raro (para não dizer único) do cinema português, António Campos é o protótipo de realizador que segue a via do cinema documental, não obstante ser uma escolha frequente dos nossos cineastas por impossibilidade de rodar ficções, fenómeno que atravessa a obra de muitos casos no nosso país.
Evidentemente, está fora de questão a qualidade do cinema de António Campos, um cineasta amador de perfil e craveira profissionais. Da escola de Leiria onde trabalhava até à Fundação Calouste Gulbenkian, o seu cinema é marcado por um apego ao emprego, âncora para a sua vida de escassos recursos. É em Leiria que roda as suas primeiras obras, depois de muitos filmes de família que preferia não adicionar à sua filmografia.
O Senhor e Um Tesoiro, ainda na década de 50, são testemunhos de dois aspectos. Primeiro, o de uma forte marca deixada na sua vida pela experiência de convívio com o mar (como aliás será constante ao longo da sua obra), no olhar para um caso de vida de dificuldades sociais e humanas, ao filmar Um Tesoiro na Praia da Vieira. Em segundo lugar, filmado (nos então) arredores da cidade de Leiria, a linguagem cinematográfica que foi capaz de construir desde a primeira obra, através da montagem paralela e até uma sugestão da "eisensteiniana" montagem de atracções, ao filmar O Senhor. Neste pequeno filme, o nascimento de uma nova vida é pontuado ritmicamente pelo girar das pás de um moinho de vento e da respectiva moagem do cereal.
O cineasta Paulo Rocha foi quem primeiro reparou e apostou neste cineasta que muito trabalhou a etno-ficção por si designada. A sua riqueza provém do facto de se colocar modestamente ao nível do objecto filmado, desprezando uma atitude superior, erro em que muitos documentaristas teimam em cair.
Este aspecto é válido, tanto para os vários documentários de carácter etnográfico que rodou, como também é verdade no caso da sua longa-metragem Terra Fria, 1992, filme em que as "profundezas" das serras trasmontanas e aqueles que elas escondem não deixam de constituir uma abordagem de carácter etnográfico.
É com esta atitude que lhe é possível filmar, em 16 mm, o documentário Almadraba Atuneira, na antiga Ilha da Abóbora em Cabanas de Tavira. Em vários exemplos que se podem apontar de registo cinematográfico da pesca do atum, nenhuma delas tem a profundeza do filme de António Campos. Nenhuma delas foca tão honestamente a árdua labuta que antecede a deita de uma armação ou a própria deita.
Da mesma forma, António Campos foi o único capaz de observar pessoalmente os pescadores e o seu lado privado, como demonstram o olhar sobre as bagagens das famílias, com colchões, camas de grades desmanchadas ou a máquina de costura. Entra na intimidade do gesto, do pescador que ao colo carrega a mulher ou o bébé, à idosa que costura na penumbra da habitação.
Um filme simbólico para Tavira e sobretudo para Cabanas, um hino aos pescadores da Abóbora, a uma actividade desaparecida, ao ciclo da vida, acompanhado pela Sagração da Primavera de Igor Stravinsky.
Foi o primeiro filme "a sério" de António Campos, o mais honesto dos documentaristas portugueses.
LG
Filmografia:
Um Tesoiro, 1958
O Senhor, 1959
Leiria 1960, 1960
A Almadraba Atuneira, 1961
Exposição Comemorativa do Nascimento de Debussy, 1962
A Arte Portuguesa Contemporânea, 1963
Obras da Gulbenkian - 1ª Fase das Obras, Desaterro Muro Periférico, Parque de Estacionamento, 1963
Exposição de Instrumentos Musicais Populares Portugueses, 1964
La Fille Mal Gardée, 1964
Obras da Gulbenkian - 2ª Fase das Obras Construção do Museu, 1964
Obras da Gulbenkian - 2ª Fase das Obras Construção do Auditório, 1964
A Invenção do Amor, 1965
Ouros do Peru, 1965
Retratos dos das Margens do Rio Lis, 1965
Um Século de Pintura Francesa, 1965
Arte do Índio Brasileiro, 1966
Chagall - Breve a Lua, Lua Cheia, Vai Aparecer, 1966
Mudar de Vida, 1966, Paulo Rocha (Assistente de Realização)
Colagem, 1967
Construção do Centro de Biologia de Oeiras da Fundação Calouste Gulbenkian, 1967
Arte Portuguesa - Do Naturalismo aos Nossos Dias, 1968
Entrega de um Busto de Luís de Camões, 1968
O Principezinho, 1968
Obras da Gulbenkian - 2ª Fase das Obras, Construção da Sede, 1969
Recordando - Obras de Construção da Sede, do Museu e do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, 1969
Museu da Gulbenkian, 1970
Raul Lino, 1970
Arte Francesa Depois de 1950, 1971
Vilarinho das Furnas, 1971
Portugal e a Pérsia -Exposição Integrada no Âmbito das Comemorações do 2500 Aniversário da Fundação da Monarquia no Irão, 1972
Rodin, 1973
Falamos de Rio de Onor, 1974
A Festa, 1975
Gente da Praia da Vieira, 1975
Património Arquitectónico Português, 1976
Ex-Votos Portugueses, 1977
Histórias Selvagens, 1978
À Descoberta de Leiria, 1987
Terra Fria, 1992
A Tremonha de Cristal, 1993

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

101 Primaveras

Já não é de hoje, mas é de assinalar a efeméride. No momento em que comemora 101 anos, no último dia 11 de Dezembro, Manoel de Oliveira prepara o filme O Estranho Caso de Angélica, com rodagem prevista para arrancar em Março de 2010.
Em jeito de Parabéns, fica a já longa filmografia, tão completa quanto é possível estabelecer. Quanto ao resto, parece-me que é ainda muito cedo para comentar. A História se encarregará de colocar Mestre Oliveira no seu devido lugar (seja ele qual for) pois, acreditem, muitas vão ser ainda as considerações tecidas sobre a sua obra e muitas as descobertas. Mas essas são coisas que ao futuro pertencem.
Está à vista que o facto de se comemorar um século de vida a fazer filmes não significa ( e contudo parecia ser um sintoma, há um ano atrás), nenhum ponto de chegada, muito menos para o mais antigo realizador em exercício.
Eis os filmes. Exceptuando os casos assinalados, todos são obras de ficção e de sua autoria.
LG
Fátima Milagrosa, Rino Lupo, 1928 (actor)
Douro, Faina Fluvial, 1931 (Documentário)
Hulha Branca, 1932 (Documentário)
Estátuas de Lisboa, 1932 (Documentário inacabado)
A Canção de Lisboa, Cottinelli Telmo, 1933 (actor)
Miramar, Praia das Rosas, 1938 (Documentário desaparecido)
Portugal Já Faz Automóveis, 1938 (Documentário)
Famalicão, 1940 (Documentário)
Aniki Bóbó, 1942
Exposição Heráldica do Trabalho, Perdigão Queiroga, 1956 (Documentário, fotografia)
O Pintor e a Cidade, 1956 (Documentário)
Imagens de Portugal 105, António Lopes Ribeiro (Actualidades, fotografia)
A Rainha Isabel II em Portugal, António Lopes Ribeiro, 1957 (Documentário, fotografia)
O Coração, 1958 (Inacabado)
O Pão, 1959 (Documentário)
Acto da Primavera, 1962
A Caça, 1963
Vilaverdinho, 1964 (Documentário)
As Pinturas do Meu Irmão Júlio, 1965 (Documentário)
A Propósito da Inauguração duma Estátua (Porto, 1100 Anos), Lopes Fernandes, Artur Moura e A. Baganha, 1970 (Documentário, supervisão)
André, a Cara e a Coragem, Xavier de Oliveira, 1971 (montagem)
O Passado e o Presente, 1971
Sever do Vouga Uma Experiência, Paulo Rocha, 1971 (supervisão)
Benilde ou a Virgem Mãe, 1974
Deliciosas Traições do Amor, Domingos Oliveira, Tereza Trautman, Phudias Barbosa, 1975 (montagem)
Amor de Perdição, 1978
Conversa Acabada, João Botelho, 1981 (actor)
Francisca, 1981
Visita ou Memórias e Confissões, 1982 (só será exibido após a sua morte)
Lisboa Cultural, 1983 (Documentário)
Nice – À Propos de Jean Vigo, 1983 (Documentário)
Le Soulier de Satin, 1985
Simpósio Internacional de Escultura, 1985 (Documentário co-realizado com Manuel Casimiro)
Mon Cas, 1986
A Propósito da Bandeira Nacional, 1987 (Documentário)
Os Canibais, 1988
“Non” ou a Vã Glória de Mandar, 1990
A Divina Comédia, 1991
O Dia do Desespero, 1992
Oliveira, o Arquitecto, Paulo Rocha, 1993 (Documentário, entrevistado)
Vale Abraão, 1993
A Caixa, 1994
Viagem a Lisboa, Wim Wenders, 1994 (actor, participação especial)
O Convento, 1995
En Une Poignée de Mains Amies, 1996 (Documentário co-realizado com Jean Rouch)
Party, 1996
Viagem ao Princípio do Mundo, 1997
Inquietude, 1998
A Carta, 1999
Palavra e Utopia, 2000
Vou Para Casa, 2001
Porto da Minha Infância, 2001 (Documentário)
O Princípio da Incerteza, 2002
Momento, 2002 (Clip musical)
Um Filme Falado, 2003
O Quinto Império Ontem Como Hoje, 2004
Espelho Mágico, 2005
Do Visível ao Invisível, 2005
Belle Toujours, 2006
O Improvável Não é Impossível, 2006
A 15ª Pedra, Rita Azevedo Gomes, 2006 (Documentário, entrevistado)
Cristóvão Colombo – O Enigma, 2007
Rencontre Unique, 2007 (Segmento de Chacun Son Cinéma)
O Poeta Doido, o Vitral e a Santa Morta, 1965/2008 (Documentário)
A Vida e a Morte – Romance de Vila do Conde, 1965/2008 (Documentário)
Singularidades de Uma Rapariga Loura, 2009
O Estranho Caso de Angélica (em preparação)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Notícias da Cinemateca 2

Ontem, 14 de Dezembro, a Cinemateca exibiu na Sala Félix Ribeiro o documentário Cordão Verde. Obra contemplativa, tem nas paisagens serranas de Monchique e do Caldeirão e (em alguns) costumes locais os seus modestos trunfos.
Digo modestos, com sinceridade, porque o filme (aliás, o video) não consegue explorar a riqueza dos mesmos costumes locais que se propõe a fazer. A câmara à mão teima em não se aproximar do objecto cinematográfico, num registo que contempla tanto a paisagem como as práticas agrícolas, corticeiras, da confecção de queijos ou de destilaria.
Com todo o respeito pelos autores, há uma permanente acanhamento em fintar o lado contemplativo que se exigiria de quando em vez, pontuando a paisagem com retratos camponeses que assim ficam gorados, roçando o exercício de falta de humildade que, sinceramente, não acredito existir em Rossana Torres e Hiroatsu Suzuki.
Essa aproximação era exigível, se os realizadores quisessem de facto fixar a marca humana na paisagem. É desse tipo de imagens que vem a riqueza de um autor como António Campos, por exemplo, que em exercício de modéstia se colocava ao nível dos homens e mulheres que retratava, e com eles corria, suava, molhava ou sujava. E o lado contemplativo, frustrava-se? Não, enriquecia com o homem que trabalhava a terra, ou no caso de Campos, sobretudo lutava no mar.
Falha parece-me ser também, a forma como o trabalho é apresentado pela Cinemateca. Longe de mim querer beliscar as competências da equipa de programação, mas é verdade que o trabalho de casa não foi muito bem feito.
Toca-nos este aspecto em particular, uma vez que na folha de sala constavam as anteriores exibições da obra:
Panorama, Lisboa, Março de 2009
62º Festival Internacional de Locarno, Agosto de 2009
Festival Internacional de Toronto, Setembro de 2009
Viennale, Novembro de 2009
Qualquer das exibições coloca a obra, assim me esclareceram, no quadro de uma ante-estreia, tal como foi anunciado pela Cinemateca. Mas não ficaria mal fazer referência a uma das primeiras exibições. Falo, como é natural, da 10ª Mostra de Cinema Europeu de Tavira, Julho de 2009, cuja programação levou a efeito, segundo a lista, a 2ª exibição da obra.
Fica o reparo.
LG

Notícias da Cinemateca 1

A notícia vem da semana passada. Maria João Seixas, mulher da Cultura em Portugal, irá assumir a Direcção da instituição a partir de Janeiro, mantendo-se Pedro Mexia como subdirector.
A boa notícia, no entanto, estende-se para fora da Cinemateca, em sintonia com os objectivos anunciados. Segundo a imprensa, a nova Direcção pretende ter uma actuação pontuada pela criação de um pólo da Cinemateca no Porto, pelo desenvolvimento e dinamização da Cinemateca Júnior, pelo impulso na salvaguarda e preservação do material da RTP (para o qual vai servir a construção em curso de novos cofres climatizados), e ainda pela descentralização.
E neste último ponto, meus amigos, a notícia pode ser muito boa para os cineclubes. É verdade que a Cinemateca tem, como competência legal, a salvaguarda e preservação do património audiovisual português. É ainda verdade que, no que respeita à divulgação, a mesma se processa sobretudo nas salas de cinema da instituição, em número de três e todas em Lisboa. É verdade, ainda, que a Cinemateca se associa frequentemente a projectos de divulgação de património cinematográfico, ou mesmo em que a utilização desse património é pontualmente utilizado noutro tipo de iniciativas.
Todas estas verdades - e competências legais, repito - são o resultado de um trabalho de décadas, que fazem com que a Cinemateca Portuguesa seja um organismo dinâmico, presente no panorama (diário) da vida cultural, e um lugar apetecível e cobiçado por muito boa gente que ambiciona a Direcção, colocação que permite projecção pessoal certa.
Verdades que não apagam os pobres e ostracizados organismos, pequenas instituições preteridas num possível - e competente - apoio a iniciativas locais e regionais. Não se trata aqui de defender a lógica de distribuidora ou de videoclube, mas seria bom encontrar caminhos de colaboração, ainda que tenham que ser pontuais, concretos, diversificados e não frequentes.
Cineclubes, esta pode bem ser a oportunidade para uma dinamização destas pequenas instituições e, por consequência, das localidades e regiões onde se inserem.
À vossa espera, têm uma Direcção apostada no compromisso entre a continuidade e o refrescar de idéias. A partir de Janeiro, a ver vamos...
LG

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

As Ruas do Rui

Há uma cidade de Lisboa, produto de uma sociedade que transforma a capital portuguesa num centro comercial de consumo desenfreado, em crescendo, como se a crise anunciada e confirmada fosse um assunto para preocupar apenas o próximo. Neste ambiente vive sobretudo a Lisboa dos meses de Novembro e Dezembro, que esvazia o recheio das lojas dos produtos natalícios que fazem as delícias superficiais dos compradores furiosos.
Numa outra Lisboa, muito mais séria, cruzam-se histórias amargas de pessoas vencidas pelo álcool, pela droga, pela miséria. Nestas ruas, onde o Natal é não mais do que apenas uma data, há (como se lê na sinopse de Ruas da Amargura), "homens e mulheres, de todas as idades, com carências afectivas, financeiras, problemas mentais", com origem em Portugal ou que para cá vieram à procura de melhor vida. Estas pessoas têm nos voluntários - sublinho voluntários - uma ajuda com ar de assistência social e psicológica que faz o que pode, vítimas nas suas nobres intenções da mesma sociedade que em frémito consumista se alheia destas histórias de vida.
Rui Simões visita essas ruas, as da amargura, e visita também as histórias, dando-lhes um rosto, uma voz, uma emoção, num documentário produzido no âmbito do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social 2010.
Documentarista de há muito tempo, Rui Simões é um dos "senhores documentaristas" do Cinema Português. Em 2006 acompanhou a revisitação de Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, levado à cena pela companhia de teatro O Bando, documentando a noite de estreia e todo o trabalho de produção, preparação e ensaios do espectáculo, num filme que se chamou Ensaio Sobre o Teatro.
Mas é sobretudo dos anos revolucionários que chegam as suas grandes obras. Em 1974 realiza Deus Pátria Autoridade, título que remete para uma resenha do timbre salazarista da ditadura, desconstruindo a sua ideologia, ao mesmo tempo que passa em revista o século, desde a queda da monarquia.
Data de 1980 aquela que, em nossa opinião, é a sua melhor obra: Bom Povo Português. Este filme retrata os tempos do PREC, desde o 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, equiparando a primeira data a um nascimento e a segunda a uma enterro - da revolução. Grande e grandiosamente sustentado por imagens de arquivo (tal como o anterior), é também o mérito da montadora Dominique Rolin que sustenta a sua eficácia, filme que só foi possível graças às imagens que muitos profissionais do cinema tinham na sua posse. Foi uma época em que "toda a gente" andava na rua a filmar o que acontecia no âmbito das convulsões políticas, incluindo a RTP, que comprometidamente boicotou esta obra, não cedendo imagens do seu arquivo. Outros tempos...
Estes dois documentários são de inegável valor histórico e informativo para se perceber o Portugal de então - e mesmo o de hoje. E a propósito, não será por acaso que Rui Simões escolhe um tema como o do filme Ruas da Amargura, obra que veremos amanhã no nosso Cineclube.
LG

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cinema Português 4: Fernando Lopes

Elemento do núcleo duro do Cinema Novo Português, Fernando Lopes começa por trabalhar como técnico da RTP, antes de tirar o curso na London Film School. É em Londres que roda os seus primeiros trabalhos, antes de tornar a Portugal e rodar a curta-metragem As Pedras e o Tempo em 1961.
É no ano de 1964 que roda Belarmino, história de um decadente pugilista de Lisboa. O registo documental cruza a vida de Belarmino com um retrato de uma certa Lisboa marginal, pela qual todos passam mas que só a câmara consegue captar, num exemplo "contemporâneo" da Câmara-Olho que Dziga Vertov defendia.
O cinema de Fernando Lopes é em Portugal, creio, o caso mais óbvio do fenómeno de contaminação da televisão para o cinema. A linguagem televisiva exigia a captação de rápidos apontamentos durante as reportagens, numa altura em que vinham ainda longe os registos videográficos muito mais longos. A publicidade tinha invadido a televisão, como o cinema, exigindo pequenas narrativas coerentes que fizessem passar uma mensagem. São estes dois vectores, aliados ao facto de Fernando Lopes ter estudado no seio da escola documental britânica, que faz dele um cineasta peculiar, notoriamente nos anos 60.
Será, talvez por isso, que é o realizador da sua geração que mais utiliza a tecnologia video, em registos documentais que é a sua produção mais vasta, independentemente da qualidade das suas longas-metragens para cinema, indicadas em baixo, numa altura em que está concluída a rodagem de Os Sorrisos do Destino
LG
1964 - Belarmino
1971 - Uma Abelha na Chuva
1975 - As Armas e o Povo (colectivo)
1977 - Nós Por Cá Todos Bem
1984 - Crónica dos Bons Malandros
1987 - Matar Saudades
1993 - O Fio do Horizonte
2001 - O Delfim
2004 - Lá Fora
2006 - 98 Octanas

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ás de Copas

Manuel Mozos é, neste momento, um caso sério do cinema português. Depois da dupla presença no Indie 2009 com Aldina Duarte: Princesa Prometida e Ruínas - o qual ganhou não só o prémio Tóbis como também foi premiado no festival FidMarseille -, o realizador foi (ainda está a ser) alvo de homenagem com retrospectiva integral dos seus filmes no Centro Cultural da Malaposta.
A História na Faculdade de Letras não o seduzia e ingressou no Conservatório onde se especializou na área de montagem, área em que trabalhou com variadíssimos autores. Ficou na (outra) História o desafio lançado pela Cinemateca, dando origem a um filme de montagem utilizando, apenas e só, cortes de censura guardados em arquivo. De feitio introvertido e circunspecto, Manuel Mozos conta já com uma considerável obra como realizador, de onde sobressaem os filmes Xavier, que tantos anos custou a finalizar, ...Quando Troveja e o recente 4 Copas.
É precisamente este filme que será exibido hoje à noite no Cineclube de Tavira, filme em que se cruzam quatro personagens que mais não são do que pessoas normais a viverem as suas vidas, com as suas "qualidades e defeitos, os seus desejos, alegrias, tristezas, verdades, mentiras, traições, culpas, medos e receios, emoções e sentimentos" (Manuel Mozos).
Em plano de fundo, um olhar sobre a Lisboa popular, que gosta de fado e de futebol, que muitas vezes são escapes da vida desconexa de cada um. E esta palavra, desconexão, é em última análise o que mais sucintamente pode resumir estas copas de Manuel Mozos.
Hoje à noite no nosso Cineclube.
LG

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cor-de-Rosa com Estilo

Personagem de culto do Cinema de Animação, a mais famosa pantera do mundo nasceu de um "simples" genérico - aliás dois, início e fim - do filme de Blake Edwards The Pink Panther, em 1963. Nesse filme, o inspector francês Clouseau de Peter Sellers era mais uma composição física e psicológica do genial comediante britânico, às voltas com as pistas que levavam aos ladrões de um diamante, o Pink Panther, com fundo da genial partitura de Henri Mancini.
O nome do diamante provinha do facto de, à luz, o diamante produzir a silhueta de um felino, o que inspirou o animador Friz Freleng a idealizar a personagem animada. Os genéricos, de extraordinária sensação (e acompanhados pela sensacional e mundialmente reconhecível música de Henri Mancini), foram a catapulta para uma série de desenhos animados que Freleng (com o produtor David Hudson DePattie), desenhou de 1964 a 1980, num total de 124 títulos.
O mais "cool" desenho animado, atitude de "british snob", estilo, humor muitas vezes de tom absurdo e surreal, sai das situações complicadas de forma airosa, provocadas por pessoas que se intrometem, por alta tecnologia, por roedores e por insectos. Eis a Pantera Cor-de-Rosa.
Os 124 episódios em colecção, de fio a pavio, estarão à venda todos os sábados numa iniciativa do jornal Público, durante 10 semanas de 17 de Outubro a 19 de Dezembro. Uma excelente oportunidade de conhecer a fundo a vida da Pantera-Cor-de-Rosa e o estilo de um dos mais celebrados criadores de animação: Friz Freleng.
Divirtam-se e bom cinema!
LG

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amália Rodrigues - 10 Anos

Há dez anos atrás, faz hoje anos, as férias que passava em Tavira tiveram naquele 6 de Outubro um sabor diferente. Difícil de definir, mas igual ao sabor que tem o desaparecimento de um ícone com o qual sempre convivemos, que gostando mais ou menos não se pode (nem se consegue) deixar de respeitar. A música portuguesa, no seu mais definido estilo, ficava orfã daquela que lhe moldou a forma, a textura e o som para o século XX e, quem sabe, para além dele.
Amália Rodrigues (23 de Julho de 1920 - 6 de Outubro de 1999), tinha o seu ocaso no Outono, deixando muita saudade, que ela cantou como ninguém. Palavra bem portuguesa, intrinsecamente ligada ao legado de Amália, pode vir a fazer parte da humanidade. Porquê? Porque desde 2005 que o Fado é candidato a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Fado e Saudade, indissociáveis, seriam então universais.
No entanto, e paradoxalmente, a universalidade do Fado é já uma realidade, facto e argumento que leva algumas personalidades a serem contra a proposta. É o caso do ensaísta Eduardo Lourenço, que afirma que o Fado "dispensa a honraria", uma vez que Amália Rodrigues, pela sua voz, universalizou o Fado.
Um bocadinho de Portugal para o mundo, eis o que a UNESCO oficializaria, para um país que não perde a oportunidade de se pôr em bicos de pés para aparecer no panorama universal, movido pela Saudade de tempos melhores mas invariavelmente passados.
Não como Amália, figura que prevalece como figura mundial da música e do canto, longe da pequenez lusitana. É por isso que muitos de nós se sentem bem, orgulhosos com a possibilidade levantada pela UNESCO. Sentimo-nos lembrados e representados, como cantava o António Variações: "Todos nós temos Amália na Voz".
E o cinema? Sim, também por lá passou Amália (e o fado, claro), desde que o portimonense Armando de Miranda rodou em 1947 Capas Negras, juntando Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, dois ícones da canção nacional. Foi o maior êxito do cinema português durante quase quatro décadas (ver imagem).
Curiosamente, o filme mais lembrado hoje em dia e do mesmo ano, é o mais bem conseguido Fado, História d'Uma Cantadeira de Perdigão Queiroga. Seguiu-se Sol e Toiros de José Buchs em 1949, em que se representa a ela própria, e o épico do mesmo ano Vendaval Maravilhoso, produção luso-brasileira de Leitão de Barros, com o pano de fundo baiano e a Abolição da Escravatura, cantado romanticamente pela poesia de Castro Alves.
Amália Rodrigues ela própria, dá colorido musical ao filme francês de Henri Verneuil Les Amants du Tage em 1954, e no ano seguinte o mesmo acontece com o filme inglês de Euan Lloyd April in Portugal.
Se Sangue Toureiro, 1958, de Augusto Fraga, tinha a particularidade de juntar dois símbolos da tradição portuguesa, juntando a Amália o toureiro Diamantino Viseu; tem também a particularidade de o fazer naquela que foi a primeira longa-metragem portuguesa a cores.
Com o Cinema Novo nascido, Jorge Brum do Canto procura filiar-se na sua estética em Fado Corrido, 1964, filme em que Amália, fadista e amante de um fidalgo, tem porventura o seu melhor desempenho na tela, acompanhando um retrato de uma certa Lisboa que não se pode ver sem ser através do olhar cinematográfico. Algo que concorre com Belarmino de Fernando Lopes, do mesmo ano, se o leitor aceitar o desafio de comparar o percurso do pugilista do segundo com o fidalgo do primeiro.
LG

Outros filmes:
1965 - As Ilhas Encantadas, de Carlos Vilardebó
1990 - Os Cornos de Cronos, de José Fonseca e Costa
1993 - Passagem por Lisboa, de Eduardo Geada
1998 - Lulu on the Bridge, de Paul Auster (E.U.A.)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dupla Efeméride


Não é todos os dias que se podem celebrar duas efemérides de grande relevância para o cinema em Portugal. A data merece ser assinalada, na medida em que faz hoje cinquenta e um anos que foi dado um passo de gigante (aliás dois), na actividade de divulgação de cinema.
Neste dia, 29 de Setembro, em 1958, a imberbe Cinemateca Nacional, então assim chamada, iniciava a sua actividade oficial, com a 1ª Retrospectiva de Cinema Português, uma mostra de dez filmes do periodo do mudo, cobrindo os anos de 1911 a 1930.
Exactamente no mesmo dia, o Cineclubismo que também hoje está de Parabéns, encontrava um organismo que lhe imprimia um carácter mais oficial do que até então. O movimento cineclubista, que ajudou a formar gostos, paixões, públicos e cineastas, via nascer a Federação Portuguesa de Cineclubes, ao tomar posse a sua Comissão Organizadora.
Seria tempo, ao cabo de 51 anos, que os organismos aqui lembrados se unissem em laços de colaboração que, até agora, são privilégio de alguns, graças sobretudo aos conhecimentos pessoais. Obviamente que não vou apontar nomes nem instituições, pois para bom entendedor meia-palavra basta muito bem...
LG

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cinema Português 3: Paulo Rocha

O curso de Direito estava destinado ao abandono. Em Paris, diploma-se no IDHEC - Institute des Hautes Études Cinematographiques (onde conhece António da Cunha Telles), antes de ser assistente de Jean Renoir em 1962.
É o realizador que roda as primeiras imagens do Novo Cinema Português, ao realizar em 1963 Os Verdes Anos. História que narra uma certa Lisboa, o aprendiz de sapateiro e a sopeira interagem pelas avenidas novas, local onde nasce o próprio movimento do Cinema Novo.
Partindo de uma pequena notícia de jornal, o argumento simples sobre uma juventude fora do seu ambiente, detectava, justamente, o que de traiçoeiro Lisboa tem para o sufoco dessa juventude.
Mais tarde, o fascínio pelo Oriente leva-o ao Japão, onde foi adido cultural, altura em que a figura de Wenceslau de Moraes se torna incontornável no seu percurso...
LG

Filmografia em Cinema:
1963 - Os Verdes Anos
1966 - Com Servir o Vinho do Porto
1966 - Mudar de Vida
1971 - Sever do Vouga... Uma Experiência
1972 - A Pousada das Chagas
1982 - A Ilha dos Amores
1984 - A Ilha de Moraes
1987 - O Desejado ou As Montanhas da Lua
1988 - Máscara de Aço Contra Abismo Azul
1998 - O Rio do Ouro
2000 - A Raiz do Coração
2001 - As Sereias
2004 - Vanitas ou O Outro Mundo

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um Homem Entre Mulheres?

Não se trata de nenhuma espécie de manifesto de carácter machista. Era o nome de uma "sitcom" dos anos 80, da qual não encontrei o título original, recuperado pelo blog para o que de facto interessa, isto é, a sessão do Cineclube desta semana.
Claro que Pranzo di Ferragosto, 2008, não é nenhuma "sitcom", mas se tomarmos pouca atenção ao tema que aborda, talvez achemos divertido. Mais profundamente, encontramos neste filme, a estreia na realização do actor e argumentista Gianni di Gregorio, todo um processo autoreflexivo.
A 15 de Agosto celebra-se na Itália o Ferragosto, tradicionalmente um feriado religioso. Giovanni, ao contrário dos seus amigos e conhecidos, não vai passear nesse dia. É um "bon vivant", não trabalha, e vive com a sua idosa mãe, sobrevivente de uma ultrapassada aristocracia. A sua débil situação financeira obriga-o a tomar conta da mãe do senhorio, atrás da qual surgem mais duas senhoras. Assim, Giovanni passa o Ferragosto na companhia de quatro idosas.
O que tem o filme de particular? Em primeiro lugar, o facto de ser um trabalho de auto-reflexão em que o autor se representa a si próprio. É a catarse de uma fase da vida em que durante 10 anos viveu com e para assistir às necessidades da mãe, com cerca de 90 anos.
Em segundo lugar, são senhoras conhecidas de di Gregorio e não actrizes. Há uma tia do realizador, uma amiga de família e duas escolhidas de cerca de 100 entrevistadas em lares de acolhimento de idosos.
Em terceiro lugar, a acção decorre no exacto apartamento onde di Gregorio viveu com a sua mãe, recurso como os demais, de um filme de baixo orçamento.
É portanto um projecto de cunho extraordinariamente pessoal. Trata-se de um homem que abdica da sua vida pessoal, de constituir famíla, da sua independência, da sua vida social, em benefício do bem-estar materno que, em Itália e como é sabido, sobretudo com filhos únicos, é figura de grande possessividade e exigência.
Um filme em que se reflecte sobre a terceira idade, as suas carências, pequenas alegrias e expectativas, saudades e muita sabedoria com muito para ensinar.
E foi assim durante a rodagem, pois di Gregorio reconheceu que elas "inventaram o filme" e "inventaram coisas mais bonitas do que o que estava escrito". A necessidade de interacção entre elas foi o mais enriquecedor, pois chegavam ao apartamento sem saber o que fazer e divertiam-se. Conviviam e ensinavam.
Apetece convocar outro filme, americano desta vez, que reflectia sobre a solidão na terceira idade, filme em que Jack Nicholson compõe, com a sua versatilidade nem sempre reconhecida, a sua personagem mais fragilizada de sempre. Essa prova de maturidade de um realizador de 40 anos, Alexander Payne, chama-se About Schmidt. Na viuvez e na solidão, Schmidt tem que contar com a assistência da filha e confrontar-se com a vida pessoal desta.
Mas ao contrário de Giovanni, que quer ficar de consciência tranquila ao ver a mãe partir, Schmidt percebe que partirá com a gratidão de ter ajudado uma criança a crescer com melhores condições do que as que o Uganda muitas vezes permite.
Infância e terceira idade próximas, a mãe de Giovanni como Ndugu, duas personagens que, de idades opostas, permitem pontos de aprendizagem sobre a vida, de acordo com a sua perspectiva.
Dois filmes obrigatórios, mas em relação a Pranzo di Ferragosto, a oportunidade é esta quinta-feira, no nosso Cineclube.
LG

Patrick Swayze, 1952-2009

Foi actor que partiu muitos corações nos anos 80, sobretudo nos filmes Dirty Dancing, 1987 e Ghost ("O Espírito do Amor"), 1990. Bailarino e príncipe encantado de Jennifer Grey e Demi Moore, foi a personificação dos sonhos adolescentes de uma geração de meninas.
Despediu-se ontem, aos 57 anos. O blog assinala o desaparecimento de um ícone cinematográfico de uma época...
LG

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cinema Português 2: António da Cunha Telles

O "script" com que nasceu dizia que iria ser médico. Chegou a estudar para isso, mas o cinema falou mais alto e concluíu o curso do IDHEC - Institute des Hautes Etudes Cinematographiques em Paris, no ano de 1961.
Nas mesas do Café Vá-Vá, em Lisboa, foi mudado o rumo do cinema em Portugal, transformação a que deu corpo com outros jovens cineastas com estudos em Paris (Paulo Rocha) e Londres (Fernando Lopes). A estes se juntou António de Macedo, arquitecto camarário mas com vasta experiência no cinema publicitário, documental e experimental.
O mito diz que Cunha Telles produziu as primeiras longas-metragens dos três realizadores com a ajuda da herança de família. Verdade ou não, Os Verdes Anos de Paulo Rocha marca o início do chamado Cinema Novo Português, no ano de 1963, ao qual se junta em 1964 Belarmino, de Fernando Lopes, e Domingo à Tarde de António de Macedo em 1965.
Como realizador, O Cerco é a sua estreia na longa-metragem, em 1970, mas Cunha Telles sempre foi essencialmente um produtor, com numerosa obra e créditos firmados em Portugal e também em França.
Onze anos se passaram, desde 1993 até voltar a realizar. Em Tavira foi um sucesso, ou não estivesse o filme cheio de exteriores - e alguns interiores também - rodados pela cidade. Chama-se Kiss Me, e conta como em tempos politicamente conturbados, uma mulher sofrida e corajosa (Marisa Cruz) parte o coração de três homens: Manuel Wiborg, Rui Unas e Nicolau Breyner.
Homenagem "a alguns bons filmes e seus autores", é a última realização de Cunha Telles até agora. Para trás ficou outra passagem pelo Algarve, em Continuar a Viver ou Os Índios da Meia-Praia, documentário sobre a comunidade piscatória da Meia-Praia que, como cantava o Zeca, é ali mesmo ao pé de Lagos.
De resto, o seu cinema passa por Lisboa e pelos jovens de várias épocas, as suas vidas, dificuldades, alegrias, desilusões. Mesmo a obra colectiva As Armas e o Povo, em pleno 1º de Maio de 1974, o primeiro após a revolução, vai dos discursos de Cunhal e Soares até às expectativas dos jovens populares, combatentes, estudantes, de sorriso rasgado e cravo ao peito, há 35 anos atrás...
LG

Filmografia como realizador:
1962 - Os Transportes
1970 - O Cerco
1974 - Meus Amigos
1975 - As Armas e o Povo (colectivo, Trabalhadores da Actividade Cinematográfica)
1976 - Continuar a Viver ou Os Índios da Meia-Praia
1983 - Vidas
1993 - Pandora
2004 - Kiss Me

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

BBB vs. Clube de Tavira

Se fossem dois BB, porventura este seria um artigo sobre a "sex-symbol" francesa mais famosa do mundo, Brigitte Bardot, que andou nos Anos 60 pela 7ª Arte a fazer bater mais depressa muitos corações, hoje sexagenários.
Se fosse portuguesa, chamar-se-ia Florbela Queirós, espécie de clone luso do fenómeno BB, que andou pela televisão, teatro, revistas (em palco e no papel). Em cinema fez umas coisas, sobretudo em Pão, Amor e... Totobola! e A Canção da Saudade, obras de Henrique Campos em que a música e o twist imperam.
O devaneio vai longo. BBB significa, em "taliban" algarvio, Boris Buggerov Band, banda de tributo a Bob Dylan. A próxima actuação vai ser no próximo Sábado dia 12, no Clube de Tavira, onde contamos com o virtuosismo do Paulo, o ritmo do Guillermo e as boas cordas (vocais e de guitarra), a teimosia e a admiração por Bob Dylan do André.
Pela minha parte, tenho muita pena de não poder estar presente, num concerto que vinca bem o renovado Clube de Tavira, com a lufada de ar fresco da responsabilidade do Paulo, Filipe, Mário e Rui. Aos outros peço desculpas por não nomear, mas a verdade é que não os conheço. Estão todos de Parabéns!
Uma última palavra em especial para o André, que para ir actuar vai passar por cima do sofrimento, em nome da boa música, da amizade e de Tavira. Um Abraço!
LG

Douro Film Harvest

Tem início hoje, na outra ponta do país, o 1º Douro Film Harvest, festival de cinema no Douro Vinhateiro, nas localidades de Torre de Moncorvo, Santa Marta de Penaguião, Lamego e Vila Real. A proposta do evento é chamar a atenção da região, classificada pela UNESCO, como local de cenários naturais para rodagem de cinema.
O programa é pontuado por vários outros eventos que potenciam a promoção da região, como os convívios em restaurantes e bares debruçados sobre a paisagem, ou concertos de onde se destaca o do guitarrista Kyle Eastwood.
A abrir, em Torre de Moncorvo, o filme Julie & Julia de Nora Ehpron. Nas notas de produção pode ler-se: "Baseado em duas histórias reais, Julie & Julia entrelaça as vidas de duas mulheres que, embora separadas pelo tempo e espaço, se encontram perdidas nas suas vidas... até descobrirem que, com a combinação certa de paixão, coragem e manteiga, tudo é possível."
Mulheres de diferentes gerações que se descobrem e interagem, funciona sempre bem, ainda mais com a presença de Meryl Streep (o elenco conta também com Amy Adams e Stanley Tucci). The Devil Wears Prada ("O Diabo Veste Prada") de David Frankel, ou The Hours ("As Horas") de Stephen Daldry, demonstram isso mesmo.
Culinária, é ingrediente que já provou funcionar na tela, poderoso produto cinematográfico, que se pode recordar em La Grand Bouffe ("A Grande Farra") de Marco Ferreri, Babbetes Gaestebud ("A Festa de Babbete") de Bille August, ou The Cook, The Thief, His Wife and Her Lover ("O Cozinheiro, O Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela") de Peter Greenaway. Apetece acrescentar os mais recentes Como Agua Para Chocolate de Alfonso Arau, Chocolat de Lasse Hallström e Ratatouille de Brad Bird e Jan Pinkava, que em Portugal recebeu o infeliz título de "Ratatui".
Para abrir um certame que tem como principal pano de fundo a região do Vinho do Porto, as 524 receitas de Julia que Julie procura reproduzir, podem fazer sentido. Mas com ou sem comida, com mais ou menos vinho, o importante é assinalar o nascimento de mais um festival de cinema em Portugal, sobretudo por promover culturalmente não só a região do Douro como também o país, e procurar chamar até nós a rodagem de produções de outros países.
Mais informações em http://dourofilmharvest.com/
LG

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Imagens de Arquivo

Quando em setembro de 2004, António da Cunha Telles rodou em Tavira o filme Kiss Me, o edifício do Arquivo Histórico Municipal emprestou a sua fachada, e fingiu ser a sala de cinema onde a protagonista Marisa Cruz se encantava com os filmes protagonizados por Marilyn Monroe. A referência cabe aqui neste espaço, mas não venho falar de Cunha Telles, nem de Marilyn, e muito menos de Marisa Cruz.
É já de algum tempo a iniciativa do Arquivo. Chama-se "Tavira a Preto e Branco" e procura sensibilizar os particulares que possuam fotografias antigas que, à partida, são todas de potencial interesse para o conhecimento, estudo e investigação sobre aspectos do Concelho em disciplinas que vão da Arquitectura à Antropologia, da Etnografia à Hstória Local, ou que não passam de "simples" curiosidade que acabam sempre por ser de interesse geral.
O blog faz eco desta iniciativa, fazendo uma sugestão que eleva a fasquia. Por que não abrir o projecto às imagens em movimento? Será que não há quem tenha pequenos filmes em formato amador de 8mm, Super8 ou mesmo o mais invulgar 9,5mm? E se houver, que vantagens isso teria para a descoberta, que pedras não seriam levantadas!
Não se trata de uma idéia original, justiça se faça à Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e ao seu projecto pioneiro.
A digitalização de tais imagens, se as houver, urge tanto ou mais do que as imagens impressas em papel fotográfico. Porque a sua riqueza é muito maior, e porque muito maior é a sua perecidade.
Fica a sugestão, como também fica o alerta de que a propriedade dos materiais nunca sai das mãos particulares, que é sempre uma preocupação de quem tem "tesouros escondidos".
Naturalmente, seria de extremo interesse a divulgação de tais imagens, o que significaria uma série de "joint forces" entre várias instituições do Concelho, coisa que me parece ser muito positiva.
Afinal, a Cultura não é ferramenta ou propriedade. É de todos e para todos.
Fica a sugestão, com mais informações em http://www.cm-tavira.pt/cmt/parameters/cm-tavira//files/File/Projecto%20de%20Recolha%20de%20Fotografias.pdf
LG

Poppy na Terra da Felicidade

Esta semana, no nosso Cineclube, vamos ter a oportunidade de ver o último trabalho do britânico Mike Leigh, Happy-Go-Lucky.
A independente professora primária Poppy é livre, descomprometida e descontraida, simpática, por todos adorada. Poppy personifica a Felicidade e a Alegria, com uma atitude condizente e inabalável que, à força de ser exteriorizada a cada passo, pode ser confundida com falta de sensibilidade, como reflecte a reacção de Scott.
Com esta obra, o realizador parece acabar por decretar uma ruptura com o percurso que vinha trilhando, de Bleak Moments a Vera Drake. Na sua obra cinematográfica (tem vasta experiência na televisão), Leigh não só sempre filmou em Londres, como retratou, ao longo da sua obra, aspectos negativos e incómodos da sociedade. A vida difícil e conformada dos mais desfavorecidos, a problemática do aborto, os desviados das regras sociais, os "podres" familiares que em surdina ajudam à sua estruturação, o fim da felicidade conjugal.
Poppy, por outro lado, apresenta-se como o lado positivo de uma sociedade. A cidadã livre de preocupações, perfeitamente focada na alegria e felicidade, blindada às questões negativas, simbolo do perfeito Ser Humano nesta utopia de Mike Leigh.
Isto é, se por um lado este filme é contrário à obra anterior de Leigh, Happy-Go-Lucky é, por outro lado, o apontar o dedo a problemas que talvez apenas o aparentem ser. Como se Poppy fosse um anjo que indicasse o correcto caminho a percorrer, num mundo de extrema complexidade, onde as coisas não são simplesmente pretas ou brancas.
Isto poderia levar-nos por caminhos que que podiam acabar em Frank Capra e na sua obra magistral It's a Wonderful Life ("Do Céu Caiu uma Estrela", 1946), mas fica - talvez - para outras "núpcias".
Para já, o convite é para esta quinta-feira, no nosso Cineclube.

Filmografia (em Cinema) de Mike Leigh:
1971 - Bleak Moments
1988 - High Hopes
1991 - Life is Sweet
1993 - Naked
1996 - Secrets and Lies
1997 - Career Girls
1999 - Topsy-Turvy
2002 - All or Nothing
2004 - Vera Drake
2008 - Happy-Go-Lucky
LG

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Propósito de Chaplin, Charlie

A verdade é só esta. Ao fim de 90 anos, os seus "gags" continuam a funcionar para miúdos e graúdos. A comédia foi a sua arma, baseada numa existência dura marcada pelo alcoolismo e morte do pai, loucura da mãe, a miséria na infância. Porém, essa comédia não é mais do que uma espécie de filtro para contar as suas histórias e falar das suas idéias, por vezes violentas ou politicamente incorrectas, os seus ódios e estimas, suaves ou controversos.
É o caso de The Immigrant, 1917, que foca a miséria que força à procura de uma vida melhor nos EUA, país que acolheu o próprio Chaplin e fez dele um milionário, mas que também foca a violência muitas vezes exercida pela autoridade. Daí o célebre e politizado pontapé no traseiro do oficial de imigração, objecto de polémica na altura. Dizia Chaplin que, "hoje e sempre, um pontapé na autoridade faz rir".
Este é um dos títulos disponíveis na edição recentemente lançada em Portugal com curtas-metragens de Charles Chaplin, pela Divisa: Chaplin - Todas as Suas Curtas-Metragens para a Essanay e a Mutual. Trata-se da sua produção na segunda e terceira empresa por onde passou, num período que vai de 1915 a 1917, e uma oportunidade de ouro para conhecer trabalho muito significativo, no âmbito de uma colecção que dá pelo nome de Orígenes del Cine.
Na verdade, é nestes anos que Chaplin apura a sua personagem de sempre - ou quase sempre - que não é mais do que um vagabundo, mas de maneiras requintadas, sem sorte na vida, que consegue ir do egoismo ao maior dos corações, e que acaba (quase) sempre sozinho, longe de um emprego, de uma casa ou de uma companheira.
Até então, na Keystone, Chaplin não só não tinha plenos poderes, como fez do vagabundo um canal para pouco mais do que o puro "gag", salvo algumas excepções.
Só depois, na First National, o vagabundo se revela um evidente canal de reflexão de Chaplin sobre a sociedade, com destaque para A Dog's Life, The Pilgrim e, sobretudo, The Kid.
Tal facto torna-se evidente nas produções para a United Artists, onde roda os celebérrimos The Gold Rush, que recentemente vimos na Mostra de Cinema Não Europeu, The Circus e, muito especialmente, City Lights, com o mais belo Grande Plano que alguma vez fechou um filme (ver foto), e Modern Times, um hino venenoso à modernidade, ao cinema, ao consumo, à classe trabalhadora, ao patronato, a tantas coisas mais da sociedade que recuperava da Grande Depressão.
Abandona o vagabundo no momento em que o faz falar, depois de uma resistência contra todos ao cinema sonoro, mas projectando-o para além de si durante mais dois filmes, pelo menos, e até hoje pelo seu legado. Eis a Filmografia:

PERIODO KEYSTONE (1914)
Making a Living
Kid Auto Races at Venice
Mabel's Strange Predicament
Between Showers
A Film Johnnie
Tango Tangles
His Favorite Pastime
Cruel, Cruel Love
The Star Boarder
Mabel at the Wheel
Twenty Minutes of Love
Caught in a Cabaret
Caught in the Rain
A Busy Day
The Fatal Mallet
Her Friend the Bandit
The Knockout
Mabel's Busy Day
Mabel's Married Life
Laughing Gas
The Property Man
The Face on the Bar Room Floor
Recreation
The Masquerader
His New Profession
The Rounders
The New Janitor
Those Love Pangs
Dough and Dynamite
Gentlemen of Nerve
His Musical Career
His Trysting Place
Tillie's Punctured Romabce
Getting Acquainted
His Prehistoric Past

PERIODO ESSANAY
(1915)
His New Job
A Night Out
The Champion
In the Park
A Jitney Elopement
The Tramp
By the Sea
Work
A Woman
The Bank
Shanghaied
A Night in the Show
A Burlesque on Carmen
(1916)
Police

PERIODO MUTUAL
(1916)
The Floorwalker
The Fireman
The Vagabond
One A. M.
The Count
The Pawnshop
Behind the Screen
The Rink
(1917)
Easy Street
The Cure
The Immigrant
The Adventurer

PERIODO FIRST NATIONAL
A Dog's Life (1918)
The Bond (1918)
Shoulder Arms (1918)
Sunnyside (1919)
A Day's Pleasure (1919)
The Kid (1921)
The Idle Class (1921)
Pay Day (1922)
The Pilgrim (1923)

PERIODO UNITED ARTISTS
A Woman of Paris (1923)
The Gold Rush (1925)
The Circus (1928)
City Lights (1931)
Modern Times (1936)
The Great Dictator (1940)
Monsieur Verdoux (1947)
Limelight (1952)

PRODUÇÃO INDEPENDENTE
A King in New York (1957)
A Countess From Hong Kong (1967)
LG

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cinema Português 1: António de Macedo

Para aqueles que não conhecem, tenho o prazer de apresentar António de Macedo. Cineasta, escritor e investigador, Macedo vai passando por merecidas homenagens, ainda que não sejam alvo de grande alarde noticioso.
Depois de tímida espécie de homenagem na Cinemateca, onde foi possível ver o seu último filme, Chá Forte com Limão, do já longínquo 1993, recebeu o prémio de Consagração de Carreira da SPA e, mais recentemente, foi homenageado no Encontro de Cinema Fantástico Português que decorreu na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Agora, e como o blog já anunciou, é a vez do MOTELx, o que acontecerá daqui a dois dias. Noutro lugar, chamei a este realizador o Bom, o Mau e o Vilão. É uma piada cinéfila, é verdade, mas penso que se aplica a este realizador. Ora vejam:
António de Macedo, o Vilão, pois teve a frontalidade de, enquanto cineasta, enfrentar um sistema que defendia - e defende - como parcial e tendencioso na atribuição de subsídios para que se façam filmes no nosso país, facto que lhe valeu uma guerra com o então-poder e o elevado preço de não voltar a filmar.
António de Macedo, o Mau, pois o seu cinema é injustamente rotulado por quem faz de "opinion-maker" como "kitsch", vulgar e desinteressante, em vez de inventivo e caso singular de uma obra coerente; ao longo da quase totalidade das suas 15 longas-metragens, fora o grande número de curtas-metragens, do documental ao publicitário, do institucional ao experimentalista.
António de Macedo, o Bom, pois os seus filmes são feitos com base em ideias do seu interesse – e não vou referir que há aqui alguns dos maiores êxitos de bilheteira do luso cinema –, que é possível juntar num grande grupo a que se pode chamar exotérico-científico, nunca se tendo desviado desse mesmo caminho. Além disso, foi o único realizador português que verdadeiramente se interessou de forma presistente e preocupada, investigando a sério e solucionando novos horizontes técnicos, propondo efeitos visuais que fizessem frente aos apertados recursos financeiros, isto nos anos 70 e 80.
O seu trabalho de escritor é já um percurso coerente no campo exotérico e neo-gótico, campos em que é investigador. Para trás ficam manifestações de interesse em Música Concreta e em Cinema. Fez parte do verdadeiro e restrito núcleo central do Cinema Novo Português, juntamente com Paulo Rocha, Fernando Lopes e António da Cunha Telles. É neste âmbito que surge a sua primeira longa-metragem de ficção, Domingo à Tarde, no ano de 1965. As outras são:
Sete Balas Para Selma, 1967
Nojo aos Cães, 1970
A Promessa, 1972
O Rico, o Camelo e o Reino ou O Princípio da Sabedoria, 1975
As Horas de Maria, 1976
O Príncipe com Orelhas de Burro, 1979
Os Abismos da Meia-Noite ou As Fontes Mágicas de Gerénia, 1983
Os Emissários de Khalôm, 1987
A Maldição de Marialva, 1990
Chá Forte com Limão, 1993
LG

Emoções Fortes

Não. Não se trata de uma publicidade à marca Jack Daniel's. Trata-se sim, das emoções fortes que o evento MOTELx pode proporcionar aos espectadores que acorrem às exibições do Festival de Cinema de Terror de Lisboa.
Independentemente de ser um género de eleição de uma ou de outra pessoa, a verdade é que há experiências que cativam o espectador. O apelo do sofrimento é, acredite-se ou não, natural no Homem, um Ser que vive na "corda bamba" da sua dualidade Eros / Thanatos, isto é, entre o Amor e a Morte.
Sobre o MOTELx 2009 salientam-se dois dias. O primeiro, dia 3/9 (ontem), foi dia de festa. A curta-metragem Reborn, de António Pascoalinho, apresentou-se ao público como não mais do que uma paródia em torno do género, contando no elenco, como Pascoalinho, um crítico e entusiasta do género, Filipe Lopes, velho amigo do nosso Cineclube, mas de quem nem todos se conseguirão lembrar, e que nos brindou há anos com a apresentação de A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick.
À longa-metragem Linkeroever, ("Margem Esquerda" no título português), produção belga de 2008 realizada por Pieter Van Hees, um morna história de uma paixão prejudicada por cultos satânicos com origens medievais, sucedeu um dos pontos altos do dia. A projecção do filme português de vanguarda A Dança dos Paroxismos, de Jorge Brum do Canto, 1929, conto fantástico que alia o sobrenatural ao bucólico e onírico, que o autor dedicou a Marcel L'Herbier. A novidade foi a música criada e agora apresentada ao vivo durante a projecção, com base em guitarra, teclas e samplers.
Extraordinário, é o facto de este filme ter sido restaurado pela Cinemateca Portuguesa, sem que esta instituição tenha cedido ao MOTELx uma cópia nova a condizer com esse restauro, com as expectativas construidas em torno da sessão (praticamente esgotada), e com a presença de centenas de interessados, profissionais e investigadores do género fantástico.
A razão da atitude da Cinemateca? Simples, o facto de no mesmo dia e à mesma hora, a instituição projectar uma cópia - esta sim - a partir do restauro, colhendo os louros que ninguém lhe tiraria por essa façanha. A Sala Félix Ribeiro não teve um terço dos espectadores da Sala 1 do Cinema São Jorge, a 200 metros de distância uma da outra...
A noite continuou com a exibição de X de Jorge Cramez, uma maçada travestida de filme de terror "barato" que, de resto, é o apanágio do próprio enredo. Mas para o fim estava reservado Martyrs, produção francesa de 2008, realizada por Pascal Laugier. Considerado um dos pontos altos do certame, a sessão da meia-noite não gorou expectativas. Premiado no Festival Internacional de Cinema de Catalunya, conta a história de uma rapariga raptada e mantida em cativeiro por um casal em condições sub-humanas. Depois de escapar, e volvidos 15 anos, procura vingar-se não por ela, mas por uma fantasma que a martiriza. O resto não posso contar. Posso apenas sugerir que se tente trazer o filme a Tavira, um caso sério de Cinema de Terror que toca o fantasmagórico, o gore e o terror psicológico.
O MOTELx termina no dia 6/9, dia em que é homenageado um realizador português - o cineasta maldito do Cinema Português - com a projecção da sua obra de 1992 A Maldição de Marialva: António de Macedo. Adaptado do conto A Dama Pé-de-Cabra, é uma obra do homem que mais trabalhou o fantástico, o exotérico em Portugal. Mas sobre esse assunto, fica para falar noutra oportunidade.
Abraços "cineclubísticos".
LG

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

To Be Continued...

Terminados que estão o Verão e as Mostras de Cinema de 2009, é de salientar os 2485 espectadores contabilizados este ano, o que dá o óptimo número de, feitas as contas, perto de 113 espectadores por sessão.
Perdoem-me os mais apolíticos pela observação, mas o público destes nossos eventos, com esta afluência, deu um recado ao poder local que, mantendo-se ou não da mesma cor, vai forçosamente mudar.
São números que encorajam a continuar a mostrar cinema no Verão (e não só), com o bom ambiente que conhecemos, e assim permita o novo poder em cartaz a partir de Janeiro do próximo ano. O apoio da Câmara Municipal de Tavira é essencial à continuidade do Cineclube e da sua programação.
É desejável não destruir o que vem sendo construido de há dez anos a esta parte. O Cineclube de Tavira e a Cultura em geral, que tanto cresceu no Concelho, agradecem. Afinal, é de presumir que o logotipo da Câmara Municipal continue a fazer sentido: "Tavira Vive Cultura"...
LG

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Bergman em Tavira?

A questão tem mais de uma ano, lançada por um associado do Cineclube. O realizador sueco Ingmar Bergman teria feito alguma coisa em Tavira? A hipótese era bastante remota, mas não impossível.
A autarquia baptizara recentemente uma pequena artéria da cidade com o nome do cineasta, adicionando-o assim à já estudada toponímia tavirense.
A Câmara Municipal, faz já vários meses, respondeu ao blog. O realizador tinha morrido recentemente e a Comissão de Toponímia resolveu homenagear uma das figuras mais significativas de sempre da 7ª Arte.
Só é pena que tal homenagem tenha ficado pelo nome de uma modesta travessa...
LG

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Take 17


Nasceu há quase ano e meio. É uma revista portuguesa de cinema e tem a particularidade de ser digital, disponível em http://www.blogger.com/www.take.com.pt.
Os que quiserem e tiverem mais paciência, podem sempre aceder ao PDF e transformar cada número em suporte papel. E a partir de agora também no blog do vosso cineclube.
De uma ou de outra forma, just TAKE it. Está disponível o nº 17, de Agosto, ou se preferirem o trocadilho cinematográfico, a Take 17.
Boas leituras.
LG

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Herzog lá por casa?


A Mostra de Cinema Europeu já lá vai, dez (aliás 11) filmes de qualidade que fizeram descobrir ou redescobrir algum do cinema de qualidade que nos últimos meses se viu em Portugal. Depois dos ABBA e do Woody Allen em Barcelona, e depois da surpresa de Hiroatsu Suzuki, fotógrafo japonês apaixonado por Trás-os-Montes; o ritmo fulgurante da Mostra passou por This is England e terminou com Slumdog Millionaire e Entre les Murs, indiscutivelmente dois dos grandes filmes dos últimos tempos.
Enquanto a 5ª Mostra de Cinema Não Europeu não chega, com cinema de Clint Eastwood a Charles Chaplin, o blog vem recordar uma das impressões mais bem vincadas da edição anterior, isto é, a projecção de Grizzly Man de Werner Herzog. É verdade que há nesta recordação uma pontinha de gosto pessoal, mas que não é razão para deixar de partilhar com os confrades cineclubistas a notícia.
A notícia, é o lançamento em dois volumes de uma coleção DVD deste cineasta alemão, uma carismática figura do Novo Cinema Alemão.
Aclamado pela crítica, sobretudo nos circuitos de cinema independente, popular entre os espectadores, construiu durante – sobretudo – os anos 70’ do século XX a sua reputação, a qual não goza de muito boa fama. Trata-se de um homem que faz filmes de temas suficientemente controversos, e que deixam mensagens a condizer. Um realizador que improvisa guiões à medida que cada uma das rodagens avança, envolta em névoas de mistério, muitas vezes em lugares inóspitos que levam ao risco de vida dos intervenientes.
Nascido em 1942, com fortes e marcantes memórias da 2ª Guerra Mundial, recusa aos doze anos em Munique, uma participação na sua escola em que tinha de cantar perante a turma, facto pelo qual esteve à beira da expulsão. Experiência traumática, só aos dezoito anos haveria de voltar a ouvir música. Anos antes, com a idade de catorze, uma enciclopédia foi o manual de iniciação à cinematografia e rouba da Escola de Cinema de Munique uma câmara 35 mm.
Mas tal rumo já Herzog decidira dar à sua vida. De volta à sua Munique aos doze anos, no final de um processo de sofrimento causado pela guerra e anos que se lhe seguiram, a sua família partilha um apartamento com Klaus Kinski. Diz Herzog: “Naquele momento eu soube que seria realizador e dirigiria Kinski”. A sua obra, os seus mais marcantes filmes, estão intrinsecamente ligados a esta super hiper carismática personagem.
Em Aguirre, Klaus Kinski é um aristocrata perdido com o seu séquito em plena floresta peruana, na procura do El Dorado. Os encontros com indígenas e as lutas de poder no interior do grupo fazem de Aguirre o único sobrevivente, numa jangada destruída na margem, invadida por dezenas de pequenos macacos. É neste momento, ao agarrar um destes seres, observando-o, que percebe que mais não é do que um deles, de uma pequenez sem expressão. Cobra Verde, um perigoso bandido do sertão, é enviado para negociar escravos com o rei do Daomé, acabando a comandar um exército de mulheres que destituem o monarca. Nas margens do Daomé, Cobra Verde desespera bizarramente por voltar ao seu país, observado por um deficiente motor de difícil compreensão. Baseado numa história verídica, o barco fluvial de Fitzcarraldo é transportado pelo interior da floresta, uma aventura de contornos impensáveis para atingir um rico território de borracha no interior do Peru. Estes são os três mais na minha descoberta, uma boa surpresa vinda da cinematografia de uma época alemã por vezes esquecida, apenas lembrada por Rainer Fassbinder e pouco mais…
Klaus Kinski é para Werner Herzog o mesmo que John Wayne é para John Ford, ou Toshiro Mifune para Akira Kurosawa. A sua forte, vincada e inebriante expressão e olhar foram a cara de um lado wagneriano do cinema de Herzog, que muito tem a ver com o melancólico e tenebroso Romantismo e mesmo com o Expressionismo, ou não fosse este uma “derivação” germânico-taciturna do primeiro. Filmes como Aguirre (1970), Woyzeck (1978), Nosferatu (1978), Fitzcarraldo (1982) e Cobra Verde (1987) são disso exemplo maior. Outros títulos a ter em conta: "Anões e Vilões" (1970), "A Canção de Bruno S." (1970), "Fata Morgana" (1971), "O Enigma de Kaspar Hauser" (1974).
LG

sexta-feira, 17 de julho de 2009

ABBA... e a tela

Depois da última conversa com o André, é quase obrigatório dar conta da peripécia da tela de projecção - cabo partido em três sítios!!! A responsabilidade não é de ninguém? Errado, é da Câmara Municipal e de mãos que pelos vistos são habilidosas para mexer em material com alguma especificidade técnica. Ao menos sabe-se de quem é a responsabilidade, não é como disse Howard Hawks - "A Culpa Foi do Macaco" (Monkey Business), ou Billy Wilder e o "macaco-fantasma" responsabilizado pelos azares em Sunset Boulevard, "O Crepúsculo dos Deuses".
O que é fantástico é que 48 horas antes da abertura da Mostra, que acontece hoje, a perspectiva de solução era quase nenhuma, talvez se arranjasse um remédio. Acreditando no impossível e na curiosa capacidade portuguesa para fazer surgir do caos uma solução "in extremis", o André lá foi fazer os testes remediando-se como pôde. Enfim, a Mostra vai mesmo ser uma realidade - era o que faltava que não! - e a projecção de Mamma Mia! vai mesmo ter lugar.
Não sei se já repararam mas há um fenómeno que faz, hoje, os criadores recuarem no tempo até anteriores décadas. No campo musical, os anos 70 e 80 surgem sistematicamente reinventados, com versões novas que se multiplicam, como se a música moderna não soubesse que caminho tomar - o que, face ao panorama, não admirará muito, mas quem sou eu para a crítica que... quase fiz...
seja como for, os anos 70 aí estão, com o seu ícone musical de proa, ABBA, que fazem dançar a Meryl Streep, saudosista, recordando os seus tempos de jovem, na presença de três ex-amores: Stellan Sarsgard, Colin Firth e Pierce Brosnan.
Seria curioso perguntar, no fim da sessão, quantas pessoas ficam com vontade de ouvir mais canções do grupo sueco. Muitos dos mais velhos diriam que sim. Quanto aos outros, talvez fiquem a perceber que já houve décadas muito mais saudáveis...
Bom filme.
LG

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mostras de Cinema 2009



O Verão está à porta. O mês de Julho vai novamente contar com a Mostra de Cinema Europeu de Tavira que este ano celebra um aniversário redondo, tal como o Cineclube: são 10 anos.
10 anos, já imaginaram? Desde Julho do ano 2000 que em Tavira e neste mês, o marco é cinema ao ar livre durante, pelo menos, dez noites seguidas. Se fizermos as contas, iremos passar as cem sessões ao ar livre na nossa cidade, com boa disposição e um ambiente de festa a cada dia.
Vamos recordar alguns momentos e os espaços que foram utilizados, bem como algumas pessoas que fizeram a história destas mostras. Umas desapareceram, outras continuam bem dispostas entre nós. O Cineclube está de parabéns, um caso de sucesso graças à "teimosia" do André, que continua a programar, a exibir e a apresentar (e às vezes com boa dose de sacrifício) as sessões sucessivas e de sucesso do nosso Verão.
Alguém ainda se lembra das entusiasmadas sessões no claustro do Convento da Graça (2000 e 2001), onde talvez o grande sucesso terá sido Buena Vista Social Club? E no ano seguinte? O Convento foi para obras e passámos pelo pátio do Palácio da Galeria, a recordar as duas edições do Festival Internacional de Cinema de Tavira brusca e involuntariamente interrompido. A abrir, um filme muito internacional, a tenaz sátira de guerra No Man's Land de Danis Tanovic.
Desde 2003 que estamos instalados no claustro do Convento do Carmo, onde uma equipa de aficionados se consolidou, a receber o nosso fiel público.
And still we are.
Por aqui passaram duas sessões memoráveis que, entre outras, me apetece destacar: Any Way the Wind Blows de Tom Barman e A Clockwork Orange de Stanley Kubrick.
A primeira acabou quase de manhã com uma jam session do realizador - e lider da banda Deus. A segunda, além da presença, entrevista ao produtor Filipe Melo e exibição daquele que é considerado o primeiro filme de terror português digno desse nome (vá lá, é mais ibérico do que outra coisa) I'll See You in My Dreams; contou com a exuberante e bem disposta presença do crítico e entusiasta "kubrickiano" Filipe Lopes que nos despertou o apetite para ver ou rever uma obra-prima, resgatada do "fundo do baú" da Columbia portuguesa.
Este ano vamos ter o prato forte no dia 23, com a presença da actriz Jo Hartley, que apresentará o filme This is England, em que participou.
E, last but not least, outra novidade importante: um projector todinho do Cineclube, feliz e ironicamente igual ao que nos acompanhou durante as outras nove mostras, pertença da Universidade do Algarve e "amavelmente cedido".
Aguardemos as últimas novidades. Enquanto elas não chegam, os cartazes deste ano fazem a sua aparição, sérios candidatos a "melhores-de-sempre".
Beijos e abraços
LG

Topfest 2008

Uma associada do nosso estimado Cineclube chamou a atenção - e já não foi ontem - para o vencedor do Topfest do ano passado. O Topfest é um festival de filmes - aliás videos - gravados apenas com telemóvel.
Vale a pena ver Mankind is no Island de Jason van Genderen, filmado nas ruas de Nova Iorque e Sidney.

http://www.youtube.com/watch?v=ZrDxe9gK8Gk
LG

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Fome

Amanhã no nosso Cineclube, o filme Hunger vai ser um forte momento de cinema. Falo por aproximação, uma vez que só tive oportunidade de o visionar em DVD; e confesso a "inveja" que tenho dos companheiros cineclubistas que estão em Tavira...

Realizado em 2008 por Steve McQueen (o outro Steve McQueen), é nada menos que a sua primeira obra, premiada em Cannes com a Camera d'Or. E que primeira obra! Os presos políticos do IRA fazem alguns protestos no sentido de melhorar a sua condição de prisioneiros. É baseado em factos reais mais ou menos recentes de que alguns de nós se conseguem lembrar, facto que aguça a profundidade desta obra, tão "parada" ou violenta - física e psicologicamente - quanto pode ser a vida na prisão.

Tendo como figura central o célebre Bobby Sands, o seu activismo e greve de fome são o fio condutor que nos transporta pelos frios, claustrofóbicos, impessoais e escuros espaços dos corredores e celas da prisão; magistralmente interpretado por Michael Fassbender. As mensagens clandestinas, a greve ao corte de cabelo, o protesto dos excrementos, as agressões dos guardas prisionais, tudo está tratado com a agressividade conveniente; ou de forma contemplativa quando deve ser. É inevitável a comparação com a fome e morte de Christopher em Into the Wild e, tal como nessa obra que vimos o Verão passado, convida à reflexão sobre a vida e a sociedade que temos.

Segura realização de McQueen, num equilíbrio entre a humanidade e a violência não sem cair em excessos, mas vincando-os à medida das necessidades, fazendo decididamente mexer com os sentidos dos espectadores no escuro e na grande tela...
LG

quarta-feira, 20 de maio de 2009

In Memorian

Vasco Granja, 1925 - 2009
Recordo o dia. Ao garoto que via animação, ainda a preto e branco, foi dada a oportunidade de conhecer Vasco Granja por razões de trabalho, muitos anos depois, já no séc. XXI. A animação era tema inevitável, mas na admiração pelo Tintim de Hergé e pelos Passageiros do Vento de François Bourgeon recaiu a conversa de quase uma hora - ou seriam cinco minutos?
Tem sido chamado o pai da Banda Desenhada portuguesa, mas o erro é crasso. Vasco Granja foi um dinamizador, um divulgador de BD em Portugal. As revistas "Tintim" e "Spirou" falam por si, anteriores aos sucedâneos que depois surgiram sem a qualidade a que os apreciadores do género se tinham habituado. A sua última vitória foi a publicação em Portugal de Tintim no País dos Sovietes, que muitos anos custou para chegar ao prelo.
Vasco Granja era um cinéfilo. Desde sempre. Foi cineclubista desde os anos '50, pioneiro do movimento em Portugal. Interessa-se por animação e, em 1960 em Annecy, está presente na primeira edição do conceituado festival de cinema do género. Mas é na qualidade de divulgador que uma geração inteira - a minha, por sinal - e para além dela, que Vasco Granja é conhecido. Mais: é figura incontornável da formação de gostos no campo da animação. Durante 16 anos apresentou Cinema de Animação na televisão pública portuguesa, com mais de mil programas.
O blog presta a sua homenagem ao homem, ao cinéfilo, ao divulgador. E ao cineclubista. Claro.
Obrigado Vasco Granja.
LG

quarta-feira, 18 de março de 2009

De Danny Boyle a Satyajit Ray


Os Óscares já lá vão, os vencedores são conhecidos, embora longe da euforia de anos anteriores. Tal como o blog anteviu, Slumdog Millionaire acabou por ser o grande vencedor e por larga margem. Não resiti à referência, pois foi há dias que vi o filme de Danny Boyle, retrato de uma Índia que apesar da sua pobreza (ou se calhar por isso) acaba por ser de uma enorme riqueza.
Bollywood à parte, que é tema para outros espaços, o cinema indiano traduz e sempre procurou traduzir esse mesmo jogo riqueza-pobreza. Não chega muito até nós (pobres ocidentais da cauda da Europa) dos estimados cerca de 800 filmes por ano, mas podemos evocar o nome de Mira Nair e do seu Monsoon Wedding, que a cineasta dedica à sua própria família; e onde por trás da alegria e ostentação punjabi, se esconde uma Delhi de poluição, de movimento, de comércio, de angústia, de choque de etnias e culturas, que tem a invariável capacidade de nos seduzir.

Se recuarmos até 1988, podemos recordar outro filme de Mira Nair, Salaam Bombay! que venceu o Óscar para o Filme Estrangeiro. Conta a história de um grupo de crianças que sobrevive a vender chá, a pedir dinheiro e a "jogar às escondidas" com a polícia; tal como acontece com Jamal Malik, o slumdog millionaire do filme de Danny Boyle, no tempo da sua infância, tão cheia de referências que contribuem para o êxito no concurso televisivo.

E por falar em crianças, não posso deixar de referir a mais famosa criança do cinema indiano. Falo de Apu, que dá o nome à trilogia de Satyajit Ray, retrato imbatível de uma Índia vista através do expressivo olhar de Apu até se fazer homem e constituir família. De elevado realismo, o cinema de Ray funda-se no Neorealismo Italiano a que teve acesso sobretudo em Londres. A nostalgia, o desânimo e a compaixão são as suas armas cinematográficas, num país que teimava em não acertar o passo da produção de cinema. Por isso escreveu nos anos '40: "A crueza das imagens do cinema é a própria vida. É inacreditável como um país que inspirou tanta pintura, tanta música, tanta poesia, falhe perante o realizador de cinema. Ele só tem de ter os olhos abertos e os ouvidos atentos. Deixem-no fazê-lo."

Ray acabou por justificar estas linhas nos anos '50, quando o seu primeiro filme (e primeiro da trilogia de Apu) Pather Panchali, conquistou o Festival de Cannes; e acabou por contribuir decisivamente para elevar o estatuto do cinema indiano. Akira Kurosawa disse a seu propósito: "Não ter visto o cinema de Ray significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua." É essa a força do seu cinema.

A trilogia de Apu:
Pather Panchali, O Lamento da Vereda, 1955
Aparajito, O Invencível, 1956
Apur Sansar, O Mundo de Apu, 1959

Permito-me destacar ainda, de entre uma prolífica obra superior, os filmes:
Jasaghar, O Salão de Música, 1958
Mahanagar, A Grande Cidade, 1963
Charulata, 1964
LG

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

And the Oscar Goes to...

Para os que gostam das estatuetas douradas de Hollywood, a hora é de expectativa. A noite (em Portugal) de Domingo dia 22 de Fevereiro vai ser longa, e quem for suficientemente doido como eu para acompanhar, saberá tudo em directo.
O grande sucesso de David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button, é o grande favorito à vitória final, acumulando um total de 13 nomeações. Mas nem por isso é garantido que seja o grande vencedor.
Numa altura em que a tradição já não é o que era, isto é, "as gloriosas" produções das majors já pouco dominam a tendência dos votantes, o grande rival é Slumdog Millionaire, de Danny Boyle. Sou dos que aposta neste fenómeno como grande filme do ano; e para quem viu outras obras do realizador como Transpotting ou 28 Days Later, imagina porquê. O filme de David Fincher tem ainda um outro rival, aparentemente de menor escala mas, não vai deixar de dar cartas: Frost/Nixon, de Ron Howard, vai vencer pelo menos o óscar de melhor actor (Frank Langella), a menos que a Academia aumente o grupo de actores bi-premiados, dando uma recompensa pela coragem de Sean Penn.
Quanto às actrizes a dúvida é grande. Será que a outra Dúvida, a do filme de John Patrick Shanley, consegue dar o segundo óscar de melhor actriz a Meryl Streep ao fim de um impressionante número de 15 nomeações, ou vamos finalmente ver Kate Winslet a subir ao palco do Kodak Theatre para agradecer o prémio pelo seu trabalho em The Reader?
E depois há os outros todos, porque nem só dos cabeças de cartaz vivem os Óscares. Wall-E vencerá sem grandes problemas o prémio para o melhor filme de animação e haverá um prémio para o melhor filme estrangeiro estreado nos Estados Unidos. Estou tentado a apostar que quem vai ficar contente são os responsáveis pela produção de A Turma ou de Valsa com Bashir.
Muitos outros prémios serão distribuídos, incluindo o ponto alto da cerimónia: Para agradecer o Óscar Honorário do ano subirá ao palco Jerry Lewis.
As apostas deste vosso amigo:

Filme: Slumdog Millionaire ou The Curious Case of Benjamin Button
Realização: Slumdog Millionaire ou The Curious Case of Benjamin Button
Actor: Frost Nixon (Frank Langella)
Actriz: Kate Winslet (The Reader)
Actor Secundário: Philip Seymour Hoffman (Doubt)
Actriz Secundária: Taraji P. Henson (The Curious Case of Benjamin Button)
LG

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Vieira, como Tarantino

As influências de obra para obra, podem por vezes originar mais do que um sucedâneo. Outras, mais não são que um exercício de cinema. Para tirar dúvidas, nada como vêr Arte. A nossa - a 7ª - e a nossa - a portuguesa -, com um abraço de co-produção ao país-irmão, dá de rompante novo filme de Leonel Vieira que, recordemos, andou há uns anos pela floresta amazónica para rodar A Selva, adaptado de Ferreira de Castro.
A influência é claramente - a imprensa é unânime - Quentin Tarantino. Dois bandidos de bairro que vivem de biscates ilícitos vão ter por missão o roubo de uma tela de, imagine-se, Van Gogh, cujo acto tem uma inesperada coincidência. Se formos audaciosos, etiquetamos este filme como road-movie, com vários ingredientes que caracterizam o género... Bom, à escala do cinema português. Mas a coragem e o esforço de Leonel Vieira são meritórios, pois encaixar o universo de Tarantino no espaço físico português não parece fácil.
Ao lado de Ivo Canelas - sem dúvida um actor em ascensão - está Enrique Arce, ambos de cinto "westerniano" e óculos escuros, aos tiros pelo Alentejo. Flora Martinez e a inevitável Soraia Chaves marcam a presença do sexo frágil (ou nem por isso, como em Tarantino). Confesso que a minha principal curiosidade está no desempenho de Nicolau Breyner que compõe um sinistro mordomo.
Uma palavra para a música. O madeirense Nuno Malo tem mão firme neste trabalho. Depois da banda sonora de Amália - O Filme, entrega-se á herança de Pulp Fiction e às suas notas de música surf, apimentada com um cheirinho a Ennio Morricone (mas só um cheirinho...) dos western spaghetti, cozinhando uma partitura surpreendente.
Esta semana, no seu Cine-Clube!
LG