quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"O Estado a Que Chegámos"

Está patente desde o último Sábado, dia 1 de Dezembro, uma Exposição de Obras de Arte, na Casa das Artes em Tavira. A ideia, que parte do Cineclube, é realizar um leilão, a ter lugar no próximo Sábado, dia 8 de Dezembro, cuja receita reverterá para o apoio financeiro ao Cineclube de Tavira. E em boa hora, porventura, chega o evento.
Ideia com algum tempo de gestação, veio (também) na sequência de acontecimentos que acabam por pôr em cheque a continuidade da programação e actividade regular do Cineclube.
A Câmara Municipal de Tavira é devedora de verbas ao abrigo do protocolo entre as duas instituições, verbas essas que têm um atraso de mais de um ano. A este facto, junta-se o corte da linha telefónica do Cine-Teatro António Pinheiro (extensão camarária), e a decisão unilateral que consiste em ter o Cineclube de Tavira que retirar todo o seu espólio - e são 13 anos e meio de actividade - do interior do Cine-Teatro.
É verdade que o Cine-Teatro, recordemos, é propriedade legítima da Câmara Municipal. E é igualmente verdade, que existe um protocolo entre as duas instituições, celebrado em 2006, que definiu algumas regras: linha telefónica, utilização do Cine-Teatro, e apoio financeiro onde tem cabimento, sobretudo, a remuneração e responsabilização social por três funcionários que garantem o serviço ao público daquele espaço.
Errado. Com efeitos a partir de Janeiro de 2013, o protocolo está revogado, conforme votação em reunião de Câmara e aprovado por maioria no último dia 19 de Novembro.
Assim, sete dias depois de uma carta endereçada ao Presidente da Câmara Municipal de Tavira, abordando um conjunto de questões sobre pagamentos, funcionários, futuro do Cine-Teatro e existência ou não de uma estratégia para o Cineclube, a resposta tout court, em quatro linhas, é a revogação do protocolo.
Na prática, o que sai de todo este episódio é a eliminação das sessões de cinema  ao Domingo que, de resto, é desde que a Câmara Municipal adquiriu o Cine-Teatro, da responsabilidade da edilidade. O Cineclube apenas assumiu a sua programação e continuidade, sem outras contrapartidas.
A presença dos três funcionários está igualmente comprometida, e a Câmara Municipal não tem resposta para o facto, apesar de em reunião havida há meses, ter sido manifestada vontade em falar com essas três pessoas.
Claro que, com tal revogação, o Cineclube irá funcionar até Janeiro ou Fevereiro com sessões regulares - ininterruptas desde Abril de 1999 - à Quinta-Feira. A partir daí, a solução, em última análise, passa pela suspensão temporária da actividade, até que um clima mais consciente do papel de um cineclube, se venha, porventura, a instalar...
A imediata resposta a esta conjuntura, é contudo, o Leilão de Obras de Arte que acontecerá na Casa das Artes de Tavira, Rua João Vaz Corte Real, no próximo Sábado dia 8 de Dezembro, pelas 21:30h, e cujo lote pode ser consultado em http://www.cineclube-tavira.com/site/index.php?option=com_events&task=view_detail&agid=736&year=2012&month=12&day=01&Itemid=1.
Um abraço cineclubista
LG

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na Terra, no Mar, a Ilha do Corvo

Esta 6ª feira chega ao Cineclube de Tavira o documentário de Gonçalo Tocha É na Terra não é na Lua.
Em ano e meio de rodagem Tocha recolheu muitas "milhas" de material, que acabou por resultar numa montagem que dá à narrativa um retrato diário.
Esta opção, resulta também da familiaridade desenvolvida com a população, o que compromete a plenitude, porventura, do retrato social anunciado, de uma comunidade que, como se lê na sinopse, conta com 450 habitantes, uma escola, um posto médico, um restaurante, um avião cada três dias.
Mas não é por isso que o trabalho de Gonçalo Tocha não tem mérito. A equipa de rodagem fez parte, afectuosamente, das famílias da Ilha  do Corvo, absorveu histórias, absorveu lágrimas e risos, que nos devolve a nós, espectadores, embrulhadas pela paisagem de mar, de terra com cheiro a verde, com as cores da Lagoa da cratera, com a imponência do Monte Gordo.
Lugares que não são da Lua, são bem na Terra, como Tocha quis sublinhar, gritando que há lugares assim, longe do bulício, dos bombardeamentos comerciais, da infestação da vida a correr. Ali, no extremo ocidental da Europa que se afunda, sobrevive o Corvo, que António Escudeiro filmou em 1977, e que na altura tinha 350 habitantes, marcados pelas histórias de existência precária e subsequente imigração.
Mas em 1977, como em 2007, ano em que Gonçalo Tocha chegou ao Corvo, os 17 quilómetros quadrados de ilha e da sua vida encerram o que José de Matos-Cruz escreveu um dia a propósito do filme de António Escudeiro (Ilha do Corvo, 1977): "dinâmica profundamente marcada pela condição impressionante da (bela) paisagem - nesta terra de futuro incerto, fora das rotas acessíveis e usuais".
Um retrato a levar em conta e para contemplar, na próxima  sessão do Cineclube de Tavira.
E ATENÇÃO! A soiré ocorre excepcionalmente na 6ª feira, dia 2 de Novembro. Como de costume, às 21:30h, no Cine-Teatro António Pinheiro.
LG

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Alô Brasil, Aquele Abraço!

















É com muita satisfação que anunciamos ter atingido a marca de dois milhões e meio de visitas ao blog, a partir de território brasileiro.

Encontrámos, por um acaso, a referência em http://urlpulso.com.br/www.cineclubedetavira.blogspot.com.
Isto significa que o blog, e sobretudo o Cineclube de Tavira, tem uma voz que se ouve muito longe, por muita gente. Significa que aqueles que não são subsidio-dependentes podem, com seriedade e algum engenho, trabalhar pela cultura, pela educação de públicos, bater o pé a muita gente e a muitos vícios instalados, projectando-se mundialmente e fazendo-se ouvir.

Assim é o Cineclube de Tavira, que com o mesmo engenho, com arte e imaginação, com inteligência, tem sabido manter-se vivo. E com eco da sua actividade em distantes paragens. Estamos todos de Parabéns.

Conhecem outro exemplo em Tavira? Ou mesmo no Sotavento? Pois...
LG

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Descoberto o primeiro filme a cores do Mundo"

O blog quebra o silêncio com uma nota sobre cinema mudo.
Mas mais que cinema mudo, trata-se de uma descoberta assinalável que, não sendo de ontem, pertence indiscutivelmente ao universo das marcas da historiografia de Cinema. Abaixo, poderão dar uma vista de olhos ao próprio filme e a umas quantas notas sobre o seu restauro.
Damos voz a Cláudia Carvalho, que a respeito do tema escreveu no Público de 14 de Setembro de 2012:

Foi encontrado no Reino Unido, aquele que será o primeiro exemplar de um filme a cores, datado de 1901 ou 1902. Até aqui os registos e a história do cinema relatavam que a primeira obra a ser exibida a cores tinha sido em 1909, depois de em 1906 se ter patenteado o sistema Kinemacolor, que permitia produzir películas a cor.

O filme estava esquecido há décadas dentro de uma lata e foi recentemente descoberto e restaurado no National Media Museum, em Bradford, que só agora anunciou o achado por estar em condições de exibir a película, pela primeira vez. Realizado pelo fotógrafo londrino Edward Raymond Turner, o filme, em que se vêem três meninos, possivelmente filhos de Turner, foi digitalizado de forma a poder recuperar a cor original da época. A descoberta é considerada como uma das mais importantes na história do cinema, uma vez que dá novas luzes sobre o aparecimento dos filmes a cores. “Acreditamos que isto vai reescrever a história do cinema”, disse ao The Telegraph Paul Goodman, responsável pela colecção do National Media Museum, sublinhando que “Edward Turner é o pai das imagens a cores em movimento”. “Não é um exagero. Estas são as primeiras imagens do mundo a cores em movimento.”

A morte precoce de Edward Turner, que morreu em 1903 de ataque cardíaco, não permitiu que o fotógrafo continuasse a desenvolver a sua técnica, nunca tendo passado dos testes e por isso sempre longe da vista do público. Em 1899 Turner tinha mesmo patenteado a sua prática, que se baseava em fotografar frames a preto e branco através de filtros azuis, verdes e vermelho. 

“É mesmo muito significativo, é definitivamente o primeiro filme a tentar captar as cores naturais, é realmente bonito”, disse à BBC Bryony Dixon, curadora do cinema mudo no British Film Institute (BFI), explicando que existem registos de alguns filmes a cores anteriores a 1902 mas não se tratam das cores reais, uma vez que os produtores pintavam o filme. “

Os filmes-teste de Edward Turner chegaram a Bradford há cerca de três anos para serem estudados e restaurados. Antes disso pertenciam ao museu de ciências de Londres que, em 1937, adquiriu a colecção do norte-americano Charles Urban, um pioneiro do cinema a viver em Londres e que financiou o método Kinemacolor. 

Entre os seus documentos e objectos estavam os filmes realizados por Turner. Por terem ficado esquecidos tanto tempo, sempre guardados em latas, o material de Turner foi encontrado em bom estado de conservação. O material foi encontrado por Michael Harvey, o comissário de cinema do museu londrino, que contactou os especialistas do Arquivo Nacional do British Film Institute. 

A razão pela qual este material passou despercebido tanto tempo foi, segundo Bryony Dixon, o seu “estranho formato”. “Foi filmado em 38 mm, o que é maior do que a medida standard de 35 mm e por isso não funciona em nenhuma máquina de 35 mm”, explicou Dixon, acrescentando que teve de ser criado um aparelho especial, pela dupla Brian Pritchard e David Cleveland, para que o filme pudesse inicialmente ser visto. 




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Resistência Cineclubista: Leilão de Cartazes

 
Os fogos devastaram o Concelho e o Cineclube esteve debaixo de fogo. A Câmara Municipal de Tavira não fez por apoiar a organização das Mostras de Cinema de Tavira que aconteceriam em Julho e Agosto de 2012, isto é, a logística não foi acautelada, e a angariação de patrocinadores no âmbito do Verão em Tavira 2012 não foi feita, pelo que o Cineclube não teve oportunidade de organizar - a tempo - as Mostras.
A Câmara Municipal de Tavira lembrou-se - e não foi por falta de tentativas do Cineclube - do evento que tende e prova ser o mais significativo da oferta cultural de Verão em Tavira, apenas a um mês de acontecer, o que, outro remédio não houve, levou ao cancelamento das Mostras. Entre outras formas de protesto e sobrevivência do certame, resta a petição on-line contra a suspensão ad aeternum das Mostras em http://peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N26437 (271 signatários no momento), e espera-se que as mesmas voltem em 2013, melhores que as anteriores 12 edições.
Para os supersticiosos o número é feio, e curioso é que a edição nº 13 tenha sido a sacrificada. Caso para dizer que não se acredita em bruxas, mas que as há, isso há. Até porque misteriosamente correu um pequenino mas maldoso boato que dava conta de uma estranha razão para o cancelamento das Mostras. Dizia o boato, que felizmente travámos a tempo, que a razão de não haver Mostras prendia-se com falta de pagamento de licenças para vender bebidas no evento. É tão maldoso como ignorante o(s) autor(es) de tal rumor, e simultaneamente triste que tal boato tenha origem em elementos com responsabilidade noutra associação que se diz e se quer cultural.
Mas a vida continua, e o Cineclube de Tavira também. Ao contrário de outros, que procuram promover reuniões com a Câmara Municipal de modo a procurar absorver mais dinheiro para as suas actividades, o Cineclube procura criar formas de angariar fundos para a sua subsistência e programação de cinema de qualidade em Tavira.
No próximo Domingo, dia 12 de Agosto, pelas 21:30h, terá lugar mais um leilão de cartazes de cinema, no Cine-Teatro António Pinheiro. Neste dia teria lugar o encerramento da 8ª Mostra de Cinema Não-Europeu de Tavira, altura em que , vinte sessões de cinema depois, o evento chegaria ao fim. O Cineclube assinala a data de fim de festa com uma divertida iniciativa que pode ter vantagem para todos. Parafraseando o André Viane:
"Se gostam de Cinema, se procuram decorar a vosa casa de forma original e económica, ou se procuram o presente ideal para oferecer aos vossos familiares, namoradas ou namorados, filhos ou netos, não percam este evento".
Domingo, não à tarde como no filme de António de Macedo, mas sim à noite, o cinema comemora-se no Cine-Teatro António Pinheiro.
LG

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sem luzes e sem câmaras... Acção!!

A julgar pelos polícias, lá em cima, podia ser um filme de Constantin Costa-Garvas. A escadaria e os leões podiam ser da Odessa de O Couraçado Potemkine de Eisenstein.
Lisboa saíu à rua ontem à noite para ver cinema português frente à Assembleia da República. As escadarias de São Bento transformaram-se numa enorme plateia onde populares se juntaram à comunidade cinematográfica, para protestar contra a inexistência de concursos de apoio a produções. 
Assim, enquanto filmes portugueses são premiados nos mais importantes certames internacionais, o Estado corta em 100%, facto exclusivo da actividade cinematográfica. A Tóbis fechou o laboratório e foi vendida, o ICA está em ruptura financeira e isso significa - ou pode significar - o fim de várias casas de produção e outras empresas associadas ao audiovisual. Muitos desempregados - mesmo muitos - resultariam de tal situação.
Não admira pois, que a Associação Portuguesa de Realizadores tenha escolhido o local que escolheu para mostrar ao Poder o que não pode de maneira nenhuma acabar. José Nascimento e Patrícia Saramago trabalharam numa montagem de imagens de cerca de quatrocentos filmes portugueses. Recorreu-se às cassetes e DVD's de cada um, e os logotipos da RTP ou da Cinemateca Portuguesa eram bem visíveis, o que não foi confortável para todos. Mas guerra é guerra e na guerra vale tudo, até porque as duas entidades são tuteladas pelo Estado.
Os aplausos sucediam-se com a projecção das imagens dos actores mais estimados ou dos realizadores mais admirados, com destaque para o recém-desaparecido Fernando Lopes; e o blog aplaudiu silenciosa e solitariamente o cinema em Tavira, com Marisa Cruz fascinada com Marilyn Monroe no Cine-Tavira.
Mas o maior aplausofoi sintomático. João César Monteiro é interrogado na esquadra de polícia sobre com que finalidade quis tomar conta de um quartel. Monteiro, com sonora palmada no tampo da mesa, responde: "Marchar sobre São Bento!"
LG


quinta-feira, 3 de maio de 2012

In Memorian: Fernando Lopes, 1935-2012


Com o desaparecimento de Fernando Lopes ontem, 2 de Maio, o Cinema Portuiguês fica não só mais pobre, cliché repetido até à exaustão, mas fica sobretudo orfão.
Nas palavras do jovem realizador do recente Tabu, Miguel Gomes, o sentimento de orfandade é incontornável com a morte de um dos pais do Cinema Novo Português, porventura aquele que, entre os seus pares, mais compreendeu que o Cinema não se podia circunscrever a um modo português de fazer cinema, nem se poderia circunscrever ao próprio cinema.
Foi por essa razão que, da televisão migrou para o Cinema, mas sempre lá voltou, explorando as linguagens que o video ou a publicidade proporcionam, pondo-as em diálogo com o cinema. O blog presta a sua homenagem, recuperando a sua filmografia de uma anterior entrada, completando-a exaustivamente.
LG


1960 - The Bowler Hat
1960 - Interlude
1960 - The Lonely Ones
1961 - Marinha Portuguesa (documentário)
1961 - Ano Mundial do Refugiado (documentário)
1961 - As Pedras e o Tempo (documentário)
1962 - O Vôo da Amizade (documentário)
1962 - As Palavras e os Fios (documentário)
1962 - Este Século em Que Vivemos (documentário)
1962 - A Cidade das 7 Colinas - Marçano Precisa-se (documentário)
1964 - Belarmino
1966 - Cruzeiro do Sul (documentário)
1967 - Tejo - Rota do Progresso (documentário)
1967 - Hoje Estreia (documentário)
1969 - Vermelho, Amarelo e Verde (documentário)
1971 - Uma Abelha na Chuva
1972 - A Aventura Calculada (documentário)
1972 - Nacionalidade: Português (documentário)
1972 - Era Uma Vez... Amanhã (documentário)
1975 - As Armas e o Povo (colectivo, documentário)
1975 - O Encoberto (documentário)
1976 - Habitat (documentário)
1977 - Nós Por Cá Todos Bem
1977 - Sons e Cores de Portugal (documentário)
1979 - Lisboa (documentário)
1981 - Cantigamente (série TV, episódio 1: O Fado Operário)
1982 - Altitude 114 (documantário)
1984 - Crónica dos Bons Malandros
1987 - Matar Saudades
1993 - O Fio do Horizonte
1996 - Se Deus Quiser (documentário)
1998 - Gérard, Fotógrafo (documentário)
1998 - Lissabon Wuppertal Lisboa (documentário)
2001 - O Delfim
2001 - Cinema
2004 - Tomai Lá do O'Neill (documentário)
2004 - Lá Fora
2006 - 98 Octanas
2006-2007 - Ela Por Ela (série TV)
2008 - O Meu Amigo Mike ao Trabalho (documentário)
2009 - Os Sorrisos do Destino
2012 - Em Câmara Lenta