quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Habemus Papam

O Cineclube inaugura o ano de cinema com a exibição de Habemus Papam de Nanni Moretti. Com o novo ano e o estigma da renovação que sempre lhe está associado, veremos no Cine-Teatro António Pinheiro um Moretti que parte de uma sempre mediática renovação, a qual se traduz pela subida de um cardeal à cadeira de S. Pedro.

De um lado temos, então, um Papa que desejava não ser eleito, e que passa por uma crise existencial, recusando aparecer em público, enquanto milhares de fiéis aguardam ansiosamente que o novo Sumo Pontífice lhes acene da famosa janela do Vaticano.

Perante esta crise existencial, é convocado um psicólogo ateu (Moretti), o qual questiona a própria Fé do Papa (Michel Piccoli). O jogo que se desenrola, diálogo intenso entre o sagrado e o profano, divino e humano, drama e comédia (aqui as subtilezas de Moretti entram em evidência), tem lugar no tabuleiro da actual sociedade que, incrédula ou não, toma conhecimento de uma crise no seio da própria Igreja Católica, com uma sucessão de casos de alegada corrupção e pedofilia.

Tais factos vão deixando cair o manto divinal para deixar transparecer os interesses políticos e mundanos que sempre estiveram associados aos sucessores de São Pedro e seus colaboradores. Este é, em última análise, o interesse e o alvo do realizador. A sua filmografia é politizada, crítica, mas também intemporal. A sua riqueza é a forma como constrói esta temática com ferramentas como a leveza, o humor, a modéstia, a imaginação.

Este filme, indiscutivelmente para ver e reflectir, é irresistivelmente comparável a um clássico: The Shoes of the Fisherman, realizado em 1968 por Michael Anderson. Nesta obra, o cardeal ucraniano Kiril Lakota (Anthony Quinn) é eleito Papa, pouco tempo depois de libertado pelo governo soviético da sua condição de prisioneiro político na Sibéria. A conjuntura política é a Guerra Fria, para além de uma crise sino-soviética que ameaça explodir a qualquer momento o poder nuclear das duas potências.

O Papa Kiril I tem uma mensagem de Paz que promete pontuar o seu pontificado, enquanto ajuda o padre Telemond (Oskar Werner) a lutar contra a sua crise de Fé, sacerdote este que tem a solução para a crise entre os dois estados comunistas. Kiril I é um pacifista, é contra a ostentação por parte da Igreja, e mais humano do que o Clero imaginaria ou desejaria, ameaçando o papel secular da Igreja Católica no xadrez mundial.

Neste filme, tal como em Moretti, explora-se a humanização de alguém que se coloca, desejavelmente, próximo do divino. Várias foram as civilizações que o fizeram, divinizando imperadores, equiparando faraós a deuses. Todas elas se destruiram a partir de dentro...

Filme a descobrir ou redescobrir, o desafio é ver The Shoes of the Fisherman depois de Habemus Papam, pondo os dois em paralelo e em matéria de reflexão. 5ª feira, dia 5 de Janeiro, no nosso estimado Cine-Teatro António Pinheiro.

LG



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