sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mostras de Cinema 2009



O Verão está à porta. O mês de Julho vai novamente contar com a Mostra de Cinema Europeu de Tavira que este ano celebra um aniversário redondo, tal como o Cineclube: são 10 anos.
10 anos, já imaginaram? Desde Julho do ano 2000 que em Tavira e neste mês, o marco é cinema ao ar livre durante, pelo menos, dez noites seguidas. Se fizermos as contas, iremos passar as cem sessões ao ar livre na nossa cidade, com boa disposição e um ambiente de festa a cada dia.
Vamos recordar alguns momentos e os espaços que foram utilizados, bem como algumas pessoas que fizeram a história destas mostras. Umas desapareceram, outras continuam bem dispostas entre nós. O Cineclube está de parabéns, um caso de sucesso graças à "teimosia" do André, que continua a programar, a exibir e a apresentar (e às vezes com boa dose de sacrifício) as sessões sucessivas e de sucesso do nosso Verão.
Alguém ainda se lembra das entusiasmadas sessões no claustro do Convento da Graça (2000 e 2001), onde talvez o grande sucesso terá sido Buena Vista Social Club? E no ano seguinte? O Convento foi para obras e passámos pelo pátio do Palácio da Galeria, a recordar as duas edições do Festival Internacional de Cinema de Tavira brusca e involuntariamente interrompido. A abrir, um filme muito internacional, a tenaz sátira de guerra No Man's Land de Danis Tanovic.
Desde 2003 que estamos instalados no claustro do Convento do Carmo, onde uma equipa de aficionados se consolidou, a receber o nosso fiel público.
And still we are.
Por aqui passaram duas sessões memoráveis que, entre outras, me apetece destacar: Any Way the Wind Blows de Tom Barman e A Clockwork Orange de Stanley Kubrick.
A primeira acabou quase de manhã com uma jam session do realizador - e lider da banda Deus. A segunda, além da presença, entrevista ao produtor Filipe Melo e exibição daquele que é considerado o primeiro filme de terror português digno desse nome (vá lá, é mais ibérico do que outra coisa) I'll See You in My Dreams; contou com a exuberante e bem disposta presença do crítico e entusiasta "kubrickiano" Filipe Lopes que nos despertou o apetite para ver ou rever uma obra-prima, resgatada do "fundo do baú" da Columbia portuguesa.
Este ano vamos ter o prato forte no dia 23, com a presença da actriz Jo Hartley, que apresentará o filme This is England, em que participou.
E, last but not least, outra novidade importante: um projector todinho do Cineclube, feliz e ironicamente igual ao que nos acompanhou durante as outras nove mostras, pertença da Universidade do Algarve e "amavelmente cedido".
Aguardemos as últimas novidades. Enquanto elas não chegam, os cartazes deste ano fazem a sua aparição, sérios candidatos a "melhores-de-sempre".
Beijos e abraços
LG

Topfest 2008

Uma associada do nosso estimado Cineclube chamou a atenção - e já não foi ontem - para o vencedor do Topfest do ano passado. O Topfest é um festival de filmes - aliás videos - gravados apenas com telemóvel.
Vale a pena ver Mankind is no Island de Jason van Genderen, filmado nas ruas de Nova Iorque e Sidney.

http://www.youtube.com/watch?v=ZrDxe9gK8Gk
LG

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Fome

Amanhã no nosso Cineclube, o filme Hunger vai ser um forte momento de cinema. Falo por aproximação, uma vez que só tive oportunidade de o visionar em DVD; e confesso a "inveja" que tenho dos companheiros cineclubistas que estão em Tavira...

Realizado em 2008 por Steve McQueen (o outro Steve McQueen), é nada menos que a sua primeira obra, premiada em Cannes com a Camera d'Or. E que primeira obra! Os presos políticos do IRA fazem alguns protestos no sentido de melhorar a sua condição de prisioneiros. É baseado em factos reais mais ou menos recentes de que alguns de nós se conseguem lembrar, facto que aguça a profundidade desta obra, tão "parada" ou violenta - física e psicologicamente - quanto pode ser a vida na prisão.

Tendo como figura central o célebre Bobby Sands, o seu activismo e greve de fome são o fio condutor que nos transporta pelos frios, claustrofóbicos, impessoais e escuros espaços dos corredores e celas da prisão; magistralmente interpretado por Michael Fassbender. As mensagens clandestinas, a greve ao corte de cabelo, o protesto dos excrementos, as agressões dos guardas prisionais, tudo está tratado com a agressividade conveniente; ou de forma contemplativa quando deve ser. É inevitável a comparação com a fome e morte de Christopher em Into the Wild e, tal como nessa obra que vimos o Verão passado, convida à reflexão sobre a vida e a sociedade que temos.

Segura realização de McQueen, num equilíbrio entre a humanidade e a violência não sem cair em excessos, mas vincando-os à medida das necessidades, fazendo decididamente mexer com os sentidos dos espectadores no escuro e na grande tela...
LG

quarta-feira, 20 de maio de 2009

In Memorian

Vasco Granja, 1925 - 2009
Recordo o dia. Ao garoto que via animação, ainda a preto e branco, foi dada a oportunidade de conhecer Vasco Granja por razões de trabalho, muitos anos depois, já no séc. XXI. A animação era tema inevitável, mas na admiração pelo Tintim de Hergé e pelos Passageiros do Vento de François Bourgeon recaiu a conversa de quase uma hora - ou seriam cinco minutos?
Tem sido chamado o pai da Banda Desenhada portuguesa, mas o erro é crasso. Vasco Granja foi um dinamizador, um divulgador de BD em Portugal. As revistas "Tintim" e "Spirou" falam por si, anteriores aos sucedâneos que depois surgiram sem a qualidade a que os apreciadores do género se tinham habituado. A sua última vitória foi a publicação em Portugal de Tintim no País dos Sovietes, que muitos anos custou para chegar ao prelo.
Vasco Granja era um cinéfilo. Desde sempre. Foi cineclubista desde os anos '50, pioneiro do movimento em Portugal. Interessa-se por animação e, em 1960 em Annecy, está presente na primeira edição do conceituado festival de cinema do género. Mas é na qualidade de divulgador que uma geração inteira - a minha, por sinal - e para além dela, que Vasco Granja é conhecido. Mais: é figura incontornável da formação de gostos no campo da animação. Durante 16 anos apresentou Cinema de Animação na televisão pública portuguesa, com mais de mil programas.
O blog presta a sua homenagem ao homem, ao cinéfilo, ao divulgador. E ao cineclubista. Claro.
Obrigado Vasco Granja.
LG

quarta-feira, 18 de março de 2009

De Danny Boyle a Satyajit Ray


Os Óscares já lá vão, os vencedores são conhecidos, embora longe da euforia de anos anteriores. Tal como o blog anteviu, Slumdog Millionaire acabou por ser o grande vencedor e por larga margem. Não resiti à referência, pois foi há dias que vi o filme de Danny Boyle, retrato de uma Índia que apesar da sua pobreza (ou se calhar por isso) acaba por ser de uma enorme riqueza.
Bollywood à parte, que é tema para outros espaços, o cinema indiano traduz e sempre procurou traduzir esse mesmo jogo riqueza-pobreza. Não chega muito até nós (pobres ocidentais da cauda da Europa) dos estimados cerca de 800 filmes por ano, mas podemos evocar o nome de Mira Nair e do seu Monsoon Wedding, que a cineasta dedica à sua própria família; e onde por trás da alegria e ostentação punjabi, se esconde uma Delhi de poluição, de movimento, de comércio, de angústia, de choque de etnias e culturas, que tem a invariável capacidade de nos seduzir.

Se recuarmos até 1988, podemos recordar outro filme de Mira Nair, Salaam Bombay! que venceu o Óscar para o Filme Estrangeiro. Conta a história de um grupo de crianças que sobrevive a vender chá, a pedir dinheiro e a "jogar às escondidas" com a polícia; tal como acontece com Jamal Malik, o slumdog millionaire do filme de Danny Boyle, no tempo da sua infância, tão cheia de referências que contribuem para o êxito no concurso televisivo.

E por falar em crianças, não posso deixar de referir a mais famosa criança do cinema indiano. Falo de Apu, que dá o nome à trilogia de Satyajit Ray, retrato imbatível de uma Índia vista através do expressivo olhar de Apu até se fazer homem e constituir família. De elevado realismo, o cinema de Ray funda-se no Neorealismo Italiano a que teve acesso sobretudo em Londres. A nostalgia, o desânimo e a compaixão são as suas armas cinematográficas, num país que teimava em não acertar o passo da produção de cinema. Por isso escreveu nos anos '40: "A crueza das imagens do cinema é a própria vida. É inacreditável como um país que inspirou tanta pintura, tanta música, tanta poesia, falhe perante o realizador de cinema. Ele só tem de ter os olhos abertos e os ouvidos atentos. Deixem-no fazê-lo."

Ray acabou por justificar estas linhas nos anos '50, quando o seu primeiro filme (e primeiro da trilogia de Apu) Pather Panchali, conquistou o Festival de Cannes; e acabou por contribuir decisivamente para elevar o estatuto do cinema indiano. Akira Kurosawa disse a seu propósito: "Não ter visto o cinema de Ray significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua." É essa a força do seu cinema.

A trilogia de Apu:
Pather Panchali, O Lamento da Vereda, 1955
Aparajito, O Invencível, 1956
Apur Sansar, O Mundo de Apu, 1959

Permito-me destacar ainda, de entre uma prolífica obra superior, os filmes:
Jasaghar, O Salão de Música, 1958
Mahanagar, A Grande Cidade, 1963
Charulata, 1964
LG

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

And the Oscar Goes to...

Para os que gostam das estatuetas douradas de Hollywood, a hora é de expectativa. A noite (em Portugal) de Domingo dia 22 de Fevereiro vai ser longa, e quem for suficientemente doido como eu para acompanhar, saberá tudo em directo.
O grande sucesso de David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button, é o grande favorito à vitória final, acumulando um total de 13 nomeações. Mas nem por isso é garantido que seja o grande vencedor.
Numa altura em que a tradição já não é o que era, isto é, "as gloriosas" produções das majors já pouco dominam a tendência dos votantes, o grande rival é Slumdog Millionaire, de Danny Boyle. Sou dos que aposta neste fenómeno como grande filme do ano; e para quem viu outras obras do realizador como Transpotting ou 28 Days Later, imagina porquê. O filme de David Fincher tem ainda um outro rival, aparentemente de menor escala mas, não vai deixar de dar cartas: Frost/Nixon, de Ron Howard, vai vencer pelo menos o óscar de melhor actor (Frank Langella), a menos que a Academia aumente o grupo de actores bi-premiados, dando uma recompensa pela coragem de Sean Penn.
Quanto às actrizes a dúvida é grande. Será que a outra Dúvida, a do filme de John Patrick Shanley, consegue dar o segundo óscar de melhor actriz a Meryl Streep ao fim de um impressionante número de 15 nomeações, ou vamos finalmente ver Kate Winslet a subir ao palco do Kodak Theatre para agradecer o prémio pelo seu trabalho em The Reader?
E depois há os outros todos, porque nem só dos cabeças de cartaz vivem os Óscares. Wall-E vencerá sem grandes problemas o prémio para o melhor filme de animação e haverá um prémio para o melhor filme estrangeiro estreado nos Estados Unidos. Estou tentado a apostar que quem vai ficar contente são os responsáveis pela produção de A Turma ou de Valsa com Bashir.
Muitos outros prémios serão distribuídos, incluindo o ponto alto da cerimónia: Para agradecer o Óscar Honorário do ano subirá ao palco Jerry Lewis.
As apostas deste vosso amigo:

Filme: Slumdog Millionaire ou The Curious Case of Benjamin Button
Realização: Slumdog Millionaire ou The Curious Case of Benjamin Button
Actor: Frost Nixon (Frank Langella)
Actriz: Kate Winslet (The Reader)
Actor Secundário: Philip Seymour Hoffman (Doubt)
Actriz Secundária: Taraji P. Henson (The Curious Case of Benjamin Button)
LG

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Vieira, como Tarantino

As influências de obra para obra, podem por vezes originar mais do que um sucedâneo. Outras, mais não são que um exercício de cinema. Para tirar dúvidas, nada como vêr Arte. A nossa - a 7ª - e a nossa - a portuguesa -, com um abraço de co-produção ao país-irmão, dá de rompante novo filme de Leonel Vieira que, recordemos, andou há uns anos pela floresta amazónica para rodar A Selva, adaptado de Ferreira de Castro.
A influência é claramente - a imprensa é unânime - Quentin Tarantino. Dois bandidos de bairro que vivem de biscates ilícitos vão ter por missão o roubo de uma tela de, imagine-se, Van Gogh, cujo acto tem uma inesperada coincidência. Se formos audaciosos, etiquetamos este filme como road-movie, com vários ingredientes que caracterizam o género... Bom, à escala do cinema português. Mas a coragem e o esforço de Leonel Vieira são meritórios, pois encaixar o universo de Tarantino no espaço físico português não parece fácil.
Ao lado de Ivo Canelas - sem dúvida um actor em ascensão - está Enrique Arce, ambos de cinto "westerniano" e óculos escuros, aos tiros pelo Alentejo. Flora Martinez e a inevitável Soraia Chaves marcam a presença do sexo frágil (ou nem por isso, como em Tarantino). Confesso que a minha principal curiosidade está no desempenho de Nicolau Breyner que compõe um sinistro mordomo.
Uma palavra para a música. O madeirense Nuno Malo tem mão firme neste trabalho. Depois da banda sonora de Amália - O Filme, entrega-se á herança de Pulp Fiction e às suas notas de música surf, apimentada com um cheirinho a Ennio Morricone (mas só um cheirinho...) dos western spaghetti, cozinhando uma partitura surpreendente.
Esta semana, no seu Cine-Clube!
LG